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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

no confessionário aos 40 #3


Aquela que de mim já é mulher, põe-se muitas vezes a reparar na outra eu que ficou criança. Recorda com desejo o jogo do elástico, o toca e foge, a mamã dá licença, o jogo das estátuas e o prego na praia. Dos oito saltos da macaca, desenhada a laranja tijolo no alcatrão da rua sem carros e dos concursos do festival da canção, onde a música vencedora era sempre qualquer uma dos greenwindows.
Refrescos de capilé e groselha, carcaças com açúcar e manteiga, papas de banana com bolacha maria e sumo de laranja, bigodes de leite.
Comida de mãe e colo de avós.
Bonecas e bebés-chorões, panelinhas de alumínio e jantarinhos com massa estrelinha, que obrigava o meu pai a comer. Os pais homens gostam muito de ser pais de filhas cor-de-rosa nuvem, amarelo pintainho, branco piquê e azul xadrezinho. São pais que lhes nascem punhos de renda, logo a seguir aos pulsos fortes.
A eu já adulta, agradece à eu criança a fortuna herdada. Que nunca terá preço.