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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

sopas de letras portuguesas # 1


Texto inspirado em: "Não venhas tarde!"

Dizes me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde
Do que me pedes, baixinho
"Não venhas tarde!",
E eu peço a Deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.

Tu sabes bem
Que eu vou p'ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
"Meu amor, não venhas tarde!"

E blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Quando era miúda, este fado do Carlos Ramos ouvia-se muito na rádio - ou melhor, na telefonia.
Sempre gostei de fado, é a música da minha terra, mas a este detestava-o - e sigo a detestar.
Primeiro e antes de compreender alguma parte da letra, era a voz do homem que me incomodava: arrastada, falsa melosa, quase suplicante.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Depois, na idade da compreensão passei a antipatizar com o protagonista da história: mas ele tem uma amante? e é casado? e vai ter com outra na cara da legítima? e ainda diz que ela sofre de ciúmes?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
E finalmente, a raiva a esta letra personificou-se na traída: mas a parva ainda lhe diz para ele não vir tarde? e com carinho? sem fazer alarde? sem azedume? e ainda se vai despedir à janela? oh mãe, mas como é que a mulher atura um marido daqueles?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Mas, coitada da desgraçada. Só alguns anos mais tarde entendi que era uma situação comum à época. De educação. De formação. De lei, até. Mulheres em casa com os filhos. Cumpridoras e pacatas. Eles na rua e onde bem lhes apetecesse. Cumpridores também. Mas já não tão pacatos.
Depois, a minha mãe, que felizmente sempre foi muito acima do seu tempo, contou-me que só em 1966, é que a mulher casada teve autorização do marido, para exercer uma profissão liberal ou na função pública. A palavra autorização, é fantástica, não é? Mas alto lá, ele ainda tinha o privilégio de poder denunciar o contrato de trabalho da mulher.
Nesse mesmo ano, a mulher casada alcançou também o direito de ser detentora de património próprio e de poder movimentar contas bancárias. Uma sortuda, já podia ter mealheiro e tudo!
Só em 1969 é permitido à mulher, viajar sem autorização do marido. Influências da ida à lua, só pode!
Até 1975, era multado aquele marido que assassinasse a sua mulher por razões de adultério. Ela ia presa. E upa, upa!
Em 1976, o marido perde o direito de violar a correspondência da mulher. As despesas da capelista, da mercearia e a conta mensal do talho...
Só em 1978, o marido perde o título de "chefe de família".
E eu de boca aberta com o nonsense da coisa.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.

Assim, não é de estranhar que este detestável fado, tenha sido à época, cantado e recantado vezes sem fim.

Oh Gi, mulher laboriosa com as letras, tu reescreve-me aí estes execráveis versos e desencanita-me o fado, menina!