terça-feira, 14 de outubro de 2008

premonições - #8


As rosas do meu canteiro sempre acharam que eram melhores que as outras flores. Peneiras que têm, antes mesmo do milagre surpreendente de Isabel, quando enganou o autoritário do Dinis. E depois, com aquilo de terem espinhos, ninguém as cala. Ah e tal, que como nenhuma outra flor se aproxima delas, podem ter mais realce lá no canteiro, que o perfume delas é famoso, têm uma água como seu nome, aguentam-se firmes no Inverno, são as preferidas dos apaixonados, cada cor sua tem um significado muito próprio, acompanham quase sempre champanhe e caixas de bombons e até os humanos lhes têm respeito quando as vão colher.

Resumindo, são umas insuportáveis e aquilo enerva-me.

Há flores muito mais bonitas do que as rosas, lá no meu canteiro. Então e os amores-perfeitos, as minhas deslumbrantes violetas, os brincos-de-princesa, as buganvílias, as estrelícias, os gladíolos e as dálias pom-pom?

Sempre que cuido das outras flores, lhes corto as folhas mortas e lhes renovo o adubo, tento fazer-lhes ver que se deviam impor perante as tontas das rosas. Trato das rosas de forma igualzinha, só não lhes faço festas.


O problema maior é com os amores-perfeitos e as minhas violetas; até metem dó. Como são baixinhas, ficam intimidadas com toda aquela prepotência. As outras, as estrelícias, os gladíolos, as buganvílias, os brincos-de-princesa e até as simples dálias, chegam bem para as rosas, essas não me preocupam. Atiram-lhes para cima da vaidade, com a originalidade das suas formas, a altura do seu caule e com a exclusividade da sua espécie e as outras, apesar de manterem com as peneiras e os picos, param logo de fazer gracinhas.

Mas fiquei com um problema; como é que ia fazer, para que as minhas flores baixinhas e frágeis, acreditassem que para mim, eram as mais bonitas de todas?

Comecei pelos amores-perfeitos e tentei explicar-lhes, que até a cor preta, arrogante e com manias de superioridade e que raramente se mistura com as outras cores, porque acha que por si só, é a elegância em pessoa, se rendeu ao mundo da botânica e escolheu os rasteirinhos amores-perfeitos, para dar o braço a torcer e aceitar de bom grado fazer pendant com o amarelo, o azul, o castanho, o encarnado, o roxo e sei lá mais com quem. Que queridos os amores-perfeitos, puseram-se logo a espreitar de uns para os outros, à procura de quem tinha mais preto na pele.

E o vosso nome, continuei eu, há lá nome mais bonito para uma flor? Só uma muito especial poderia ser chamada assim.

E fiz mais. Para as mimar, retirei-as do canteiro e coloquei-as em vasinhos de terracota. Distribuí-as pelo parapeito da janela da cozinha, para poderem dizer adeus às amigas, amparei-as ente os meus livros preferidos e perfumaram-me as histórias, ouviram a banda sonora do Moulin Rouge, enfeitei com elas o quarto da Beatriz e à noite acendi-lhes uma vela especial sem perfume, para terem companhia e lhes iluminar as cores.

Só lhes digo que parecem outras. Espreitam pela janela para as invejosas das rosas e pelas frechas das portadas, atiram dicas e conselhos de ânimo, aos jovens amores-perfeitos, que entretanto semeei. Estão portanto em convalescença, mas com alento para voltarem ao seu verdadeiro ecossistema; a terra, o sol, a chuva, o frio e o calor, o vento e para junto das amigas coloridas.


Com as minhas violetas, foi mais difícil. Coitadinhas, são muito sensíveis e com qualquer simples aborrecimento, deixam logo cair a flor e já nem sei se, ou quando voltarão a florir. Peguei nelas com muito jeito e acariciei-lhe o pelo, devagar. Ah pois, o pelo. Quantas flores existem com pelo nas folhas? Poucas, aposto. Isso é característica de humanos e do reino animal. E também das minhas violetas, que são especiais com penugem nas folhas fortes e macias, que crescem em forma de rodízio e servem de amparo para a flor linda que vai nascer no seu centro. E disse-lhes para o caso de não saberem, que mais nenhuma flor recém-nascida, é tão bonita como uma baby-violet. As violetas escondem de nós segredos coloridos, pois só elas sabem a cor da flor que aí vem. E que cores! Roxo, branco, anil, tons transparentes de lilás, cor-de-rosa e …violeta. Pois é meninas, vocês são nome de cor e de gente. Violeta! Parece impossível, mas elas tinham tão baixa a auto-estima, que pensavam que só as tontas das rosas tinham direito a tal privilégio. Até se lhes arrepiaram os pelos das folhas, tal foi a euforia e a algazarra entre todas. Gritinhos para ali, gritinhos para ali. E ainda há mais, continuei eu, há rosas amarelas, rosas encarnadas, rosas brancas, rosas cor-de-rosa, mas nunca viram rosas violetas…só de estufa e mesmo assim deve ser um violeta muito do desbotadinho.

As outras empertigadas, ouviram tudo lá de fora e começaram a observar-se com descrição. Realmente, rosa violeta nenhuma era e ainda por cima, já não bastava as simplórias das margaridas darem nome aos humanos, agora também havia mais estas minorcas e rasas com nome de gente. Isto foi imediatamente motivo para grande estardalhaço no canteiro. As escandalosas das estrelícias, armaram logo barraca com sonoras gargalhadas ao ver a cara de ofendidas das outras. Os gladíolos, que traziam flores quase até ao solo, cochicharam com as térreas violetas e trocaram segredinhos à vontade, sem qualquer receio dos espinhos que as espreitavam, sempre de extremidade pontiaguda e ameaçadora em riste. As buganvílias, com aquele frondoso corpo carregado de cor, conseguiram chegar até à janela da minha cozinha e era vê-las a serem informadas de todas as curiosidades, contadas pelos amores-perfeitos, sobre o que se passava do interior da minha casa.

As dálias pom-pom, que têm um certo prestígio lá no canteiro, porque eu lhes corto o pé com frequência para enfeitar a minha sala, juntaram-se aos brincos-de-princesa, que são flor com estatuto de nobreza e trataram logo de por as rosas no seu lugar. Disseram-lhes que a partir de agora, acabassem com as pinderiquices, com as desfeitas a torto e a direito às flores pequeninas, frágeis e desprotegidas, que até os simplórios dos cravos encarnados iriam ter melhor futuro que elas, que pusessem de parte a megalomania, porque qualquer dia só prestavam para logótipo rasca e descorado, de um partido político que governaria um qualquer país minorca e foleiro, que terá tudo, menos aspecto de canteiro florido.

fotos de ana cotta e cláudio marcon


32 comentários:

salvoconduto disse...

Também acredito que sim, que mais tarde ou mais cedo as rosa cor de rosa deixarão de nos estragar o canteiro.

Confesso que passei a por de lado as rosas cor de rosa, na minha jarra não entram.

PDuarte disse...

e as flores de laranjeira?
qual o papel delas nesta história?

Patti disse...

pD:
São virgens, não se misturam em canteiros.

SONY disse...

Patti,

Só tu para escreveres estes textos.
Tão teus!
Assim como adorei o das virgulas, adorei este e pelo que nos transmites aqui, a realidade dum jardim, a realidade da vida.

Olha não sei porquê mas fizeste-me lembrar "Sermão de Santo António aos Peixes"
de Padre António Vieira.

Aquela obra diz-me tanto!!

Um beijo,
Sony

Adorei os amores-perfeitos!
O texto e as fotos claro.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Rosa cá em casa nã entra, mas eles já têm outro símbolo! Amanhã eu mostro lá no Rochedo.
Gosto muito de violetas,esterlícias, hidranjas, até amores- perfeitos, mas flor de laranjeira, só se for para fazer chá e da-lo a beber a um certo senhor que habita na Madeira.
Livra!

Pitanga Doce disse...

Esta tua declaração aos amores-perfeitos só tem um defeito: não ter sido escrita por mim. hehhe

Sabes, quando a noite era de gelo, as azaléas amanheciam congeladas e algumas já nem abriam mais. Mas os amores-perfeitos, tão pequenos e delicados podiam tombar, mas quando vinha o sol se erguiam outra vez.
Acho que vamos fundar um clube das amantes (no bom sentido) dos amores perfeitos, na blogosfera. Já viste que são uns "arrasa corações"?

Alecrim disse...

Adorei este texto. Como muitos que por aqui leio. Não leio todos, confesso, porque a tua produção ultrapassa em muito o tempo que tenho para computar. Gostava muito que publicasses um livro. Ou mais. Tens talento, e muito, e eu ler-te-ia.

Gi disse...

Ainda havemos de assistir, por causa deste texto, a mais uma reedição da Guerra das Rosas.
Depois lá têm que vir as rosinhas de S.António pôr água (das rosas, claro) na fervura.

Vekiki disse...

Gostei das tuas Flores!
Adoro amores perfeitos ( porque será?) e dálias!
E gosto de te ler :-)

de dentro pra fora.... disse...

Isto até perece uma historia entre mortais mas com dois pés e não um só...tanta gente que gosta de se por no lugar das rosas, ainda bem que á alguém capaz de as colocar no seu devido lugar...de igual para igual, o mundo seria bem melhor.
Adoro amores perfeitos, violetas tulipas,então se for um bouquet de flores do campo cheio de cores melhor ainda(foi o meu ramo de noiva).

Cátia disse...

Tantas flores... Mas a diversidade, a junção de todas essas caracteristicas, de perfumes, de cores, fazem um jardim perfeito... Tal como todas as nossas caracteristicas, fazem o jardim que somos. Cabe-nos a nós fazer com que viva cada vez mais.

Adorei este teu texto.
Beijinhos

claudia disse...

Adoro flores...e tulipas!
bonito texto.
bjos

Tite disse...

Pena que eu tenha tanta dificuldade em ler este blog dado o cansaço da vista duma "sexygenária"!!!!
Levei tempo mas lá consegui. Espectáculo!!!!
Parabéns à autora do texto em quem me revi por tanto falar com as minhas plantas e também gostar mais de amores-perfeitos que de rosas.
As rosas são efémeras, comparativamente com os amores-perfeitos e depois... sempre que olhamos para eles parece que são rostos expectantes de diálogo com os humanos, tal a sua parecença.
Como adoro conversar com as plantas com estes parece que lhes vejo o sorriso de alegria por tanta comunicação e interesse.
São como as pessoas, precisam de amor e carinho. Devolve-nos tudo em beleza.
Jokas

paulofski disse...

Tens um belo e florido jardim. Emana fragrâncias e calma, transmite prazer e cor.

A minha mãe também fala com as flores.

Si disse...

Neste jardim à beira mar plantado, há muito que as guerras foram declaradas, com a mesma subtileza e mesquinhez que as rosas do seu canteiro usam para fazer notar, para conseguir que as outras se baixem, para arranhar quem as degladie.
E nós todos, amores-imperfeitos, achamos que quando as rosas deixam que nos cheguem alguns pingos da chuva que nos dá alento, podemos ficar satisfeitos.
Burros que nós somos!

ana v. disse...

Que amor de texto, Patti! Gostei imenso de ler esta psicanálise floral... ;-)
Um beijinho

Fatima disse...

A sorte também depende muito das mãos que nos passam por perto.
Sortudas estas flores!

Teresa Durães disse...

um canteiro muito activo :)

Fiona de Bourbon disse...

Já não dou conta de atualizar minha leitura por aqui.

Adoro flores! Dessas fotos aqui, alguma é real, do seu canteiro? Adoro violetas na janela da cozinha. Pena que as minhas sempre tem vida muito curta. Não dou sorte com plantas.

Cátia disse...

Passei só para dar uma nova: A "nossa amiga" voltou :D (mesmo que temporariamente...)

Bjs

liamaral disse...

Por falar em flores, recebi em casa uma encomenda de 10 rosas! Lindas!
:) Beijinho

Narrador disse...

Os amores perfeitos...

Reflexos disse...

Realmente as rosas 'têm a mania'!
Os meus amores, as minhs estrelicias, os meus brinco,as minhas lanternas, não tem esse problema... no meu jardim não há rosas... por opção...
Adorei o texto e adorp flores!

Reflexos disse...

... as minhas flores tem de saber disto!

Rosa dos Ventos disse...

Tu não tens um jardim qualquer, tens praticamente a Praça das Flores! :-))
Bela e divertida descrição...
Realmente as rosas são umas toleironas, salvo as rosas dos ventos!
Sabes que costumo ter rosas até Novembro no jardim da casa para onde hei-de voltar e este ano nem uma sobreviveu?!

Abraço sem espinhos

Filoxera disse...

E os hibiscos e os nenúfares?
Adoro amores-perfeitos, coroas imperiais, astruménias (não sei se se escreve assim) e tantas outras, mas os jardins nuca têm tudo, não é?
Beijos.

LeniB disse...

Soube-me mesmo bem ler este teu texto...já me estava a contorcer na cadeira com tantas composições que tenho para corrigir...descontraiu-me mesmo...
bjs

O Pinoka disse...

Ainda arranjas maneira das rosas ficarem deprimidas e depois tens que lhe dar o mesmo carinho devido ao peso na consciência.
Beijocas

Georgia disse...

Que lindo esse seu post e as fotos estao fantásticas. Eu acabei de plantar Primel parente do Amor Perfeito, pois o outono está muito bonito por aqui.

Em abril você fez parte da blogagem Contra o Analfabetismo e agora estou aqui te convidando para uma outra blogagem. Quem sabe você também vai aderir. Passa lá no meu blog para saber mais. Acredito que você tenha muita coisa para contar.

Obrigada

Luísa disse...

Gostei imenso, Patti, destas suas «confusões no canteiro». E não tenho dúvidas da realidade dos acontecimentos, porque as flores têm muita personalidade e grande sensibilidade às palavras humanas. Ainda bem que a sua intervenção repôs o equilíbrio e sossegou as hostes… Embora fique com alguma pena das rosas, coitaditas, que adivinho perfeitamente arrasadas com a ameaça final. ;-D

BlueVelvet disse...

Um post florido sem floreados.
Uma ideia brilhante para um post brilhantemente escrito.
Adoro flores e amores-perfeitos e violetas são das minhas preferidas.
Mas não sei porquê, em minha casa não se dão muito bem.
Quando ficam doentes vão para casa da minha mãe convalescer.
Adorei o final.

f@ disse...

Zinías e amores perfeitos...
cada flor é um mundo único... com espinhos e sem espinhos...
as fraquezas abertas são mostras de vitalidade...
As pétalas murchas dentro de livro tb perfumam ...
beijinhos das nuvens