quinta-feira, 30 de outubro de 2008

caderno a lápis

foto de fernanda fonseca

Preenche-me sempre a lápis porque gosta de apagar, rasurar, desenhar asteriscos, fazer setinhas de ligação, sublinhar, escrever notas de cabeçalho e de rodapé.

Faz-me desenhos nos cantos superiores, enquanto espera que a imaginação chegue para escrever em seguida nas linhas que lhe coloco à disposição e que esperam pacientes para serem preenchidas.

Quando está mais lenta dobra-me os cantos, brinca com a borracha entre os dedos e fixa o olhar em mim como se me visse a folha seguinte à transparência. No fundo, despe-me.

Nos dias em que está com o tema na ponta da lapiseira, arranha-me com força, ri dos disparates que me escreve ou fica séria quando têm gravidade. Vira-me e revira-me as folhas constantemente, lê-me e relê-me.

Não lhe interessa a confusão, as vozes ao fundo, os ruídos de base, a presença dos outros, a televisão ou a música. Gosta de barulho à volta, que de todas as vezes lhe fez companhia e sempre soube encontrar o seu silêncio nele. Eu também acabei por me habituar, aos locais inusitados que ela escolhe para me sacar da carteira e começar-me a escrever. E lá vou eu outra vez, sem horários. sem rumo, sem saber. Tenho passeado muito, já lhe conheço o carro, o escritório, a casa, o picadeiro ao domingo de manhã, a esplanada junto ao cais, o bar da praia, a espreguiçadeira da piscina e noutro dia até adormeceu comigo na cama e só acordamos depois do sol.

Eu, um simples caderno de linhas.

32 comentários:

salvoconduto disse...

Não te ponhas à tabela que ainda entra um PDA por casa dela adentro...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

E dessas intimidades saem os posts que nos deliciam, não é?

BlueVelvet disse...

És das minhas: nada como papel, embora eu escreva a tinta num Moleskine. Num não. Tenho uma infinidade deles.
Mas gostei da maneira como o teu fala contigo.
Foi um bocado indiscreto contando-nos algumas intimidades, mas enfim, é o mal de não lhe fazeres delete.
Muito giro, Patti.

Gi disse...

...E depois abandona-me, momentaneamente, para ecranizar o que escreve em mim, neste meu siamês virtual, para que vocês, leitores e comentadores, nos possam ler.
A seguir, ou mesmo antes, passa um traço oblíquo nas minhas fatiotas já gastas e prepara-se para o desenho do fato seguinte.
É assim a minha designer.

Tretoso Mor disse...

Patti,

Inconfidências de um confessor?...

Lindo!

Tretices em branco para ti.

pedro oliveira disse...

Caderno feliz!
Mas o aviso do salvo tem toda a pertinência...

de dentro pra fora.... disse...

Aí se ele contasse tudo que por lá passa! :)

ines disse...

E é assim que se escreve a vida. Porque nenhum caderno que se preze precisa de linhas. Porque quando a ultima página se acaba, compra-se um caderno novo.

Bdia

Essência Pura disse...

Patti,

Recebi um presente lindo e quero dividir com vc...está no lado direito do meu blog com o seu linck
Te repasso por te achar muito especial em todos os sentidos...

Um bom dia prá vc

Miriam

Ka disse...

E é só um????

Ai mulhéri...com a imaginação que tu tens e com o que escreves aposto que são carradas deles :)

Beijos

Vekiki disse...

Olá Patti! Olá caderno da Patti! Lindos os dois. A Patti nas suas rotinas e escritos. O caderno na sua fidelidade. Lindo, como sempre...

Pitanga Doce disse...

E eles passam a ser nossos grandes companheiros. Fiéis, porque não questionam nem nos julgam. Simplesmente aceitam o que vê o nosso coração. Certamente os guarda em lugar especial, entre os outros cadernos já preenchidos.
E é assim como dizes: não há barulho à volta que nos tire do meio das suas páginas ainda em branco. Poderia ficar a falar de cadernos por mais uma hora, mas não é preciso porque tu já sabes.

beijos, Patti

segue mail

Pepper disse...

Dos mais bonitos posts que alguma vez li.
Amei!Continua a escrever assim.

Beijinhos

paulofski disse...

O que um simples caderno de linhas sabe da vida de quem lhe escreve o histórias, apontamentos, desejos, letras e momentos para mais tarde serem recordados. Um bloquinho de notas valiosas, sem preço.

Miepeee disse...

Há muito que troquei os cadernos pelo Word. Nao tenho um caderno que possa falar de mim, mas escrevo muitas coisas em post-it e guardanapos de papel sempre que o Word nao está disponivel.

Nina disse...

E não é lindo isso???

vc conhce a música do Toquinho que se chama cO Caderno?
é bem assim, Patti, delicado assim.

Eu adoro escrever nos meus. Mandar cartas. Desenhar...

Luísa disse...

Aventuras e desventuras de um simples caderno de notas, Patti. O meu diria, provavelmente, o mesmo, excepto que não lhe dobro as folhas, que não lhe risco os cantos, que o escrevo com letra de tricô e que o trato com muita cerimónia. Acrescentaria ainda que o abandono miseravelmente todas as noites em local de que nunca me lembro todas as manhãs. E concluiria talvez que os cadernos são todos iguais, mas há uns que são mais cadernos do que outros… ;-D

Patti disse...

Luísa:
Que sortudo o seu caderno de linhas, mas sabe que o meu já se habituou aos caminhos por onde o levo, aos rabiscos e às folhas torcidas. Tem bom feitio. :)

Luísa disse...

O seu é que é sortudo, Patti! O meu ainda não é bem caderno... ;-)

Si disse...

Patti,
É esta ligação visceral ao seu caderno, que faz com que ele reserve as suas melhores linhas para a efeverscente criatividade da sua mente.

P.S.- Olha, olha, um caderno de linhas ali....se calhar ainda agora, inusitadamente, me cruzei com ele nas Amoreiras, ao pé da Bertrand.....seria??

Patti disse...

Si:
Não devia ser, o meu está comigo neste momento.:)

cristina ribeiro disse...

Que bela folha de diário de um caderno de apontamentos, Patti...

Pitanga Doce disse...

Toc toc: O correio bate à porta.E por fim os papéis inverteram-se, veja só.

boa noite Patti

Esta música está boa para amanhã, se as luzes da cobertura acenderem-se.

mariam disse...

Patti,
é cumplicidade e amor!o que se sente nesta "relação" :)

bom resto de semana
um sorriso :)

mariam


obrigada, p'las palavras deixadas...

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Patti,
nada me admirou no auto-retrato do caderno, pois é evidente que ele ficou MARCADO pela Minha Amiga.
Quando passamos pelos «Ares...» somos todos cadernos de linhas.
Beijinho

Filoxera disse...

Companheiro inseparável. E de qualidade!
Beijinhos.

R.L. disse...

Nada como escrever no papel. Parece que escrevemos mais a sério. Parece que fica mais gravado, mais dentro do que somos, parece que fica escrito dentro de nós.
E fica, não parece.
Mas o problema de escrever no caderno (também tenho um, verde, que forrei com um tecido indiano), é que depois fico com preguiça de passar para o PC e partilhar alguns textos. Daí o www.oquartodehospedes.blogspot.com estar meio abandonado por mim.
Acho que escrever é conversar connosco. E perder um caderno desses, é como se o mundo inteiro estivesse a escutar atrás da porta, uma conversa entre nós e o nosso melhor amigo.

João Videira Santos disse...

Imaginativo...

Gostei de ler.

Patti disse...

PCP:
Marcado será mesmo a palavra exacta :)

LeniB disse...

Guardo ainda muitos cadernos com diversas coisas rascunhadas à pressa, ou lentamente, conforme nos apetecia - refiro-me ao caderno e a mim, claro...

Fatima disse...

Há cadernos com muita sorte!
São "riscados" com muita qualidade.

Laura disse...

Sim, sempre papel, a sorver a nossa solidão em forma de palavras...