segunda-feira, 13 de outubro de 2008

quem vê o quê a quem


Fico a pensar que sim. Que se olha muito para fora. Demasiado até. Avalia-se sobejamente o exterior, os outros. Também o faço, confesso. Frequentemente. Esqueço-me é da parte do avaliar, porque lanço logo o espírito em fantasias. E quem sou eu para esticar o dedo indicador...

Prefiro perder-me na expressão distraída da mulher, que sentada na esplanada desfolha uma revista, nos dedos do homem que mexem e remexem o açúcar do café e que deixa fugir o olhar para o infinito, na conversa sussurrada do casal de velhos, acolhidos no banco do jardim e no saco de miolo de pão seco que ela, com a mão trémula de veias grossas e azuis, oferece devagar aos pombos do jardim.

Depois lembro-me da minha primeira bicicleta de rodinhas, comprada em Espanha na loja Las Tres Campanas, enquanto sigo o olhar pelo caminho em linha muito recta, que faz a menina que tem uma cor-de-rosa parecida com a minha. Fixo-me na mãe dela, que saiu de casa à presa e se esqueceu de si e de se arranjar, um pouco que fosse, sorrio para dentro a pensar, porque são na maioria os homens, quem queda parado a ler as gordas dos jornais expostos no quiosque da rua, não imagino há quanto tempo, dorme no passeio o velho alcoolizado, ainda me apercebo do ar enfastiado e do pensamento a quilómetros de mim, daquela miúda nova que serve na minha esplanada e tenho pena do balão lilás, que fugiu da mão do menino de caracóis pretos e que seguiu em direcção ao céu. Ouço o tom de voz do marido, da mãe cansada, que se esqueceu de se arranjar, que chega nas calmas de sábado à tarde com a Bola debaixo do braço e lhe pergunta com comando na voz, já pediste para mim?

E tenho, duas mesas à frente da minha, um bebé a rir-se da minha cara.

Ainda há aquele homem que fala sozinho e acho que se responde. O outro que grita ao telemóvel, enquanto deita um olho aos filhos que se esticam para dentro do lago, os namorados que estão zangados, os que estão calados, os que estão apaixonados e os três estudantes, que suspiram com a quantidade de calhamaços que acartam e ainda não descobriram que este, vai ser um dos seus melhores tempos.

Depois passeio pela rua, com este sol belíssimo que me afaga a cara, entro na loja preferida e trago comigo mais duas peças de roupa da nova colecção, parecida com as outras que já lá tenho no cabide, rio e quase canto, durante o filme que escolhi ver, entro e saio num instante da mercearia tradicional, porque só preciso das minhas tenras couves de Bruxelas e chego a casa ao fim do dia, novamente mais completa.

Mais inteira de pormenores sem importância, que nem sequer são meus, de vivências simples a que dou imenso valor e de olhares ao redor que me enriquecem o dia. E a angústia do tempo que passa, dissipasse.

E quando me sento no cadeirão de orelhas, sobre as pernas dobradas para começar a ler, atiro primeiro uma e depois outra gargalhada. Quem está à minha frente, só levanta os olhos, não reage e já não estranha, lá está ela de novo, de certeza que ficou presa a alguma coisa que viu hoje.

A primeira gargalhada, vai para os que tiram rápidas ilações e supõem que quando nos sentamos a observar a vida que vai à nossa volta, a atitude de quem o faz nunca é de humildade, mas sempre de fagocitose.

A segunda gargalhada é mais amiga. É a pensar nos que até me conhecem, mas que me dizem, nas vezes que me apanham nas minhas observância do quotidiano, pronto, já estás perdida no teu mundo, mergulhada nos teus motivos, dentro de ti novamente.

Afinal, pensava eu que a minha cabeça era promiscua de divagações e devaneios, que errava perdida pelos bocados de vida que os outros me mostravam sem saber, que passeava durante todo este tempo no espaço exterior, a interpretar e ouvir o que quase não era dito entre eles e afinal, dizem-me agora aqueles que me estão mais perto, que a minha cabeça é monógama e que fico muito metida comigo mesma, quando me dedico a este espiar em jeito de mirone, do eu dos outros.

20 comentários:

SONY disse...

Patti,

talvez a maioria das pessoas como dizes e bem, quando decidem observar as outras seja mesmo para se "atirar a elas" como se estivessem esfomeadas de alguma coisa para contar, imitar,comentar.

Podemos apreender muita coisa ao observar os "EUS" dos outros, talvez até tornemos os nossos melhores!

Sempre atenta à vida, ela é cheia de pormenores e é neles que está infiltrada toda a riqueza.

Jito,
Sony

Gi disse...

Fagocitose, Fagocitose, Fagocitose: lembrar-me de ver;
A minha cabeça interior está hoje muuuuuito adormecida e revela-se, exteriormente, por uma grande dor...

Nina disse...

Eu também gosto de observar as pessoas, o jeito de cada uma, mas dá um pouco de medo, porque há pessoas que nao gostam, aí eu tomo somente certos cuidados, assim, olhando de cantinho de olho :)

tem muita vida por aí!

a foto que vc postou é tao linda, será que existe? ou é imaginacao? parece uma maquete, sei lá... bonita e limpa.
bjs Patti querida e obrigada pela forca de sempre :))))

Teresa Durães disse...

gosto também de observar os outros

Si disse...

Se todos fossemos tão verdadeiros na maneira de observar os outros, se censurássemos, logo de seguida, os pensamentos institivos que os vão julgar e classificar, para os substitir pelas incertezas que um raciocínio mais ponderado traz, talvez fossemos todos mais sinceros com a própria vida.

Beijinhos

Filoxera disse...

Tenho momentos de pura excursão ao mundo da lua, mas noutros também sou observadora. E gosto não só de observar pessoas, mas também varandas e mesmo espreitar, numa rápida passagem de carro, o interior das casas já de luz acesa.
Beijinhos.

de dentro pra fora.... disse...

Acho que todos nós gostamos de olhar os outros...pena é que nem sempre "os vemos.."

BlueVelvet disse...

Não me vais levar a mal, mas hoje fiquei-me primeiro pela música e depois pela imagem.
Ambas soberbas.
Também gosto muito de observar as pessoas mas eu imagino as histórias de vida que estão por trás dos seus rostos e corpos.

pedro oliveira disse...

Uma das coisas que mais gosto de fazer é estar sentado num sitio onde possa estar a olhar os outros sem ser topado e ver as acções e reações dos outros.

1/4 de Fada disse...

Ultimamente a observação do ser humano não me tem trazido senão surpresas desagradáveis de modo que ando um tanto amarga. Coisas que passam...

Rita disse...

É engraçado deitarmo-nos a adivinhar e só pelo que vemos, o que está por detrás de cada atitude e cada acção das pessoas que observamos. É quase como quando lemos um livro e tiramos as nossas ilações e imaginamos tudo o que está para além das palavras que lemos...
Jokas

claudia disse...

Já viste melhor filme???? e com tantas personagens??? o enredo é a tua imaginaçao! Se conseguires que seja cómico entao tens o dia ganho ( já nao basta a tristeza de mtos no dia a dia ).

bjos

Pitanga Doce disse...

"A segunda gargalhada é mais amiga. É a pensar nos que até me conhecem, mas que me dizem, nas vezes que me apanham nas minhas observâncias do quotidiano, pronto, já estás perdida no teu mundo, mergulhada nos teus motivos, dentro de ti novamente".

Sei que não gostas de cópias, mas este teu trecho cabe-me bem hoje. Nem sempre as pessoas que estão á volta compreendem a nossa, quase necessidade, de mergulharmos dentro de nós mesmos. O que para nós é tão importante, para eles é alvo de recriminações.

beijos em tarde de segunda

salvoconduto disse...

Por vezes é difícil. Anda muita gente mascarada.

Gasolina disse...

Dificil, dificil é não me encontrar retratada nas tuas palavras. Quando olho o mundo de fora e o de dentro; quando me chamam a atenção porque viajo; quando me calo porque refiz o caminho da viagem; quando roubo o balão ao menino de caracóis pretos ou até dou uma golada na garrafa dos segredos do ébrio que tombado no banco do jardim o aqueceu para eu sentir que ele ainda está vivo e logo mais, serena ou inquieta, escreva sobre ele.

Um beijo e PALMAS por mais um rasgo sobre o genial.

mariam disse...

Patti,
delicioso, este "escorrer" de inconfidências de mais um pedacinho da tua "alma"... feitio!

um pontinho ali, outro ali, outro mais abaixo, também "encaixo" neles!

e... gostei do traçar do perna e das monólogas gargalhadas (isto existe??)...

boa semana
um grande sorriso :)

mariam

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Patti: como também sou muito dadoa isso, tenho um sobrinho que costuma dizer-me: Pronto,lá está o tio a entrar no mundo virtual.

Pedro Barata disse...

Parabéns pelo teu blog. Está muito bom.

Se quiseres dar um pulo ao meu:

www.aquelebagacinho.blogspot.com

Saudações

paulofski disse...

Mesmo sem querer observa-mos, inveja-mos, gosta-mos, reprova-mos, ignora-mos, espreita-mos, coscuvilha-mos, comenta-mos quem e o que nos rodeia. Uns mais que outros mas somos mesmo assim, humanos.

susana catarino disse...

ainda há dias escrevi um pequeno post sobre este tema... de vez em quando sabe bem sentarmo-nos e olharmos os outros, vermos os seus comportamentos, quem passa e da nas vistas, quem passa sem se fazer notar...

post muito bem escrito, gostei muito, mais uma vez!