
Depois de escrever o post sobre a correria que é o regresso às aulas e de ler os vossos comentários, opiniões e experiências pessoais, fiquei a pensar no assunto. É uma característica minha. Gosto de pensar no que escrevo. E no que leio. Até porque existem sempre vários lados de um mesmo assunto, que se devem ter em linha de conta e impulsos, precipitações e juízos com poucas bases resultam sempre em disparate.
Será que desta vez pensei demais, ou não é novidade para ninguém que na maior parte das famílias, sejam elas mais modernas ou mais tradicionais e apesar de algumas mudanças positivas, a sobrecarga de tudo o que diz respeito à família e principalmente aos filhos, cai ainda nas costas de nós mães?
Não é querer ser reaccionária, polémica, queixinhas de dodo em riste, sofredora e muito menos fazer o papel da coitadinha explorada, que aliás me fica péssimo.
É só uma mera constatação da realidade, numa sociedade em que grande parte das mulheres também trabalha fora de casa, por razões tão diversas quanto válidas.
Mas realmente há coisas que nunca mudam. Ou mudam pouco. Ou devagar. Muito devagar. Mesmo. Por responsabilidade de ambos os sexos.
Antes de mais, salvo já aqui as devidas excepções. E se as houver por aí, por favor aproximem-se e piquem ali em baixo onde diz comentários.
Continua a ser de nós mães que se espera toda a harmonia da casa, que vai desde tarefas domésticas maneirinhas, como lavar tectos e arear tachos, passando por criar filhos felizes, bem educados e lavadinhos e acabando no ritual da apanha do cocó do cão e na distribuição da alpista aos piriquitos. Tudo isto com ar feliz, impecável e sempre em forma. Tipo wonder woman, mas sem aquela parte das pirosas botas de verniz encarnadas.
Pessoalmente, sinto-me uma privilegiada, porque 75% do meu trabalho consigo fazê-lo em casa, aqui mesmo neste escritório, onde escrevo estas palavras. Sou dona dos meus horários e divido o meu tempo e disponibilidade entre mim e a família, sem pressões, presas e culpas. Foi a opção que escolhi, acarreta algumas desvantagens incluindo monetárias, mas não a trocava por um trabalho por conta de outrem. Nunca me arrependi e hoje cada vez menos.
Há ainda o caso de mulheres que estão em casa todo o dia e não param um segundo que seja, desde que se levantam, muitas vezes primeiro que todos os outros, até que se deitam. Por opção ou porque não tiveram outra alternativa.
Mas grande parte das mães trabalha fora de casa, com horários impostos, com responsabilidades que por vezes não permitem a mínima distracção ou falha sequer, com demoradas viagens em transportes públicos apinhados de gente, em filas de trânsito infinitas, com idas desesperantes a supermercados às piores horas do dia e só com o direito a três abdominais no ginásio da esquina, na fugaz hora de almoço.
O que me espanta é que tudo isto é suposto ser muito normal. As mulheres queixam-se e tal, respiram fundo, adormecem para cima do vizinho do lado no comboio, têm olheiras até ao queixo, passam os fins-de-semana a estender máquinas de roupa e tomam tudo de uma forma indelével. Em muito poucas, vejo uma reacção para modificar a situação, pelo contrário, alimentam-na. Há famílias onde não será de todo possível qualquer tipo de mudança na estrutura familiar, principalmente por razões de ordem social e de educação. Mas em muitas outras esse problema não se põe! Será que as mulheres ainda crêem na ideia, de que casar é começar a viver só para os outros? Acreditam em sinas e destinos do passado, destinos pré-estabelecidos pela sociedade e conformam-se simplesmente com aquilo que os outros esperam que façam, porque foi assim que alguém um dia lhes disse.
Quem já não ouviu a desculpa de uma amiga: ai amanhã não posso, porque tenho de ir com a minha filha ao dentista; hoje não dá, porque ainda não fiz o jantar; tenho de me ir embora, porque já estou atrasada para lhe dar o banho; não contes comigo, porque quando chego a casa, ainda tenho tudo para fazer; jantar de aniversário ao dia de semana? Nem pensar, então quem é que depois deita os miúdos? Fim-de-semana fora? Credo! E quem toma conta do meu marido e da minha filha?
Hello! Desculpem lá, mas hoje em dia, respostas deste tipo não deviam ser normais. Mas são. E ainda por cima são dadas por mulheres da minha idade e ainda mais novas. Primeiro não devem ter os homens em grande conta e pior ainda, a elas próprias. Por isso muitas vezes digo, que o peso que carregamos em cima de nós mães, será também culpa nossa. Tenham paciência, mas nunca ouvi respostas deste tipo, vindas da boca de um homem! Serão as mães completamente insubstituíveis e os pais completamente incapazes? Não acredito.
Então porque assumem tal papel? Também não sei.
Paizinhos, ‘bora ai trocar o verbo na pergunta e em vez de um: queres ajuda em alguma coisa, passamos a ouvir e aceitamos o: queres dividir o trabalho?
Era tudo tão mais fácil. Eles trocam o verbo da pergunta e nós, mãezinhas, deixamos de ter a mania que somos mães deles!
Quando andei nas voltas com o material escolar no hipermercado, vi que pelo menos quase todos os pais que estavam naqueles corredores, eram mães com filhos ou sem eles e de lista de material na mão. O único homem que vi, berrava com a desgraçada da filha adolescente, só porque ela queria os dossiers da moda em vez de escolher os que ele entendia e o problema ali nem sequer era monetário e sim falta de jeito, paciência e casmurrice. O cretino que reagiu assim, não o fez por ser homem, obviamente. Era mesmo assim de nascença, independentemente do seu sexo. Mas é um facto que os homens não têm muita pachorra para estas coisas de escolher uma caneta entre outras trinta, que para eles são a mesmíssima coisa. Mas se eu fosse até ao corredor dos artigos para carros, ou cd’s, ou vinhos …
Aliás, como a Cecília aqui disse e muito bem, para os homens aquilo é tudo igual, compra-se um caderno, uma bic azul, uma lapiseira e uma borracha e já está!
Meus amigos, isso era ‘dantes!
Outro exemplo, é tudo o que diga respeito a médicos e doenças. Otorrino, dentista, ortodoncia, oftalmologista, ginecologista, ortopedista, fisioterapeuta, radiologista, urgências de hospital, vacinas, tratamentos de enfermagem, análise clínicas, pensos rápidos, compras na farmácia e até picadas de peixe-aranha. Na maior parte dos casos quem vai com os filhos? As mães. Porquê? Não sei, mas gostava de saber.
Onde eu vejo uma mudança maior e até muito nítida, é no acompanhamento dos filhos pelo pai, às actividades desportivas. Caso seja ballet ou futebol. Há muito mais homens a ir pôr e buscar os filhos às actividades extra e muitos deles ficam lá durante o horário inteiro. Mistério!
Outro tema onde as mães estão em maioria, é no acompanhamento escolar dos filhos. A secretária é muitas vezes substituída pela mesa da cozinha. Ali estuda-se, fazem-se os trabalhos de casa e tiram-se dúvidas.
Enquanto isso, a mãe faz o jantar, dobra meias, engoma camisas e t-shirts, prega dois botões, atende o telefone às melgas da tv cabo, ou a sujeitos suspeitos que lhes oferecem prémios que têm de levantar a partir das sete da noite, fazem mimos ao gato e mudam a areia da caixa, estendem roupa, preparam o almoço da criança do dia seguinte, limam uma unha falhada há três dias, orientam o saco do ginásio, trincam uma maça, telefonam à mãe, pensam mal da sacana da colega do trabalho, pensam se ainda querem ter outro filho, pensam na factura da contribuição autárquica, pensam que ainda não marcaram a consulta de ginecologista, resolvem deixar de pensar, arrumam as compras na despensa, tiram dúvidas de matemática ao filho, telefonam outra vez à mãe, põem a mesa para o jantar, reparam que se esqueceram de comprar guardanapos de papel o que também não faz mal, porque vai com rolo de cozinha e tudo, assinam o teste de história, tentam perceber alguma coisa da novela das sete, ralham com o filho que espreita para os morangos com açúcar em vez de fazer os tpc, sonham com aqueles sapatos da montra, lêem um recado da directora de turma, telefonam a última vez à mãe, reparam finalmente que fizeram tudo isto ainda de saltos altos, atiram um beijo ao marido que acabou de chegar, cansadíííííssimo do trabalho e que lhes pergunta, então, o teu dia foi bom?
E depois disto tudo, ainda têm de ouvir bocas parvas sobre enxaquecas!