quinta-feira, 20 de novembro de 2008

espera-maridos - #13

fotos do blog sweet paul

Naquele tempo, casava-se por tradição, educação, porque os pais mandavam e os filhos obedeciam e porque sim. Poucas vezes por amor, que esse chegava mais tarde e era quando vinha.
Ao marido, consagrou-lhe um patamar acima de seu, conforme lhe ensinaram e atribuiu-lhe um cargo de amo, senhor e patrono, que a governava, protegia e até orientava. E assim, cumprindo com todas as regras estabelecidas, tudo haveria de correr bem.

Mas o seu papel de mulher serena, obediente e cumpridora dos incómodos deveres matrimoniais, não foi o bastante para o manter perto de si. E os muitos serões de longas esperas, foram acompanhados pelo seu hobby de solteira, o crochet.
Testemunhas oculares, de muitos anos de dedicação silenciosa a um casamento de solidão, assim foram, quilómetros de correntinhas, pontos baixos, pontos médios e pontos altos, pontos sós e espaços, que inventou com a linha branca de algodão.


Nas suas mãos diligentes, tomaram forma toalhas para dias de festa, colchas de Verão para camas frescas, dobras ricas em lençóis de linho, naperons para tabuleiros de chá, camilhas de franjas grossas e panos e paninhos de todos os modelos, para entreter o tempo que sobejava cada vez mais.
No início, o crochet que nascia da agulha de alumínio que trazia de solteira, era para terminar o enxoval e as muitas peças inacabadas, nos pormenores de uma bainha, ou no cerzir cuidadoso de uma ponta pelo avesso.

A prática era muita, o resultado final perfeito, mas não passava de um entretém de menina prendada, como lhe dissera a mãe. O teu tempo daqui para a frente, é para ser investido na tua casa, nos teus filhos e sobretudo no bem estar do teu marido. E depois é que vens tu. Crochet a partir de agora, é coisa de gente com tempo livre.
Enganou-se a mãe. Tempo livre era o que mais tinha e depois do enxoval para os filhos, continuou sempre com o crochet e só trocou a agulha de alumínio pela de aço, de forma a estar mais de acordo com a sua vida.


Vestida com camisa de dormir bordada por si, protegida por um espera-maridos nos ombros encolhidos, ligava a telefonia e ao som dos 'olhos castanhos' ou do 'não venhas tarde', encetava o seu ritual nocturno, que com o avançar dos anos, deixou de ter hora fixa para terminar.
Num trabalho quase autista, que crescia sozinho e ausente de controlo, surgiam alças e laçadas, costuras unidas e arremates, pontos e carreiras, uns apertados e outros mais frouxos, conforme o estado de espírito. E a tensão, o mais relevante de tudo. A tensão do ponto, controlada pela mão segura no fio, que só tinha um momento de vacilo, quando lhe sentia a chave metida à porta e atirando de qualquer maneira o companheiro de horas tristes para o lado, recebia o marido com o mesmo sorriso compreensivo e condescendente de todas as noites.
Fazia que acreditava na felicidade daquela união, onde verdade seja dita, ele nunca lhe faltara com nada.

Só com tudo.
Confirmava se o pijama dele se encontrava colocado na beira da cama, se a dobra do lençol estava devidamente esticada e se o copo de água mineral, protegido do pó por um dos seus naperons de crochet, estava na mesa-de-cabeceira.
Na noite seguinte, retomaria o trabalho abandonado na salinha de costura. Esse ao menos, esperaria sempre por ela.


Quando ao fim de meio século de casamento, celebrou as bodas de ouro e deu um jantar onde reuniu a família e os amigos, tirou do baú de noiva, muitos dos seus antigos companheiros de uma vida com pouco para contar. Amigos de muitas horas, que depois de criados por si, eram dobrados com perfeição e guardados para quase nunca serem mexidos. Impolutos.

Ninguém reparou neles, ninguém deu importância aos trabalhos, ninguém perguntou donde vinham todos aqueles naperons, panos e toalhas de vários tamanhos, que enfeitavam de repente a casa.
Só Matilde.
Matilde a neta querida, que observou o jeito com que ela passava a mão ossuda, nas franjas da camilha para as alisar, como sacudia cuidadosamente as migalhas da toalha grande, da mesa de jantar, para não puxar nenhum ponto fragilizado pelo tempo, como sorria ao distribuir pelos móveis, bases de copos de linha branca, como ajeitava os cantos dobrados dos naperons, assentes em tabuleiros herdados, de prata antiga.


Foi a avó Maria que fez tudo isto? Nunca me tinha mostrado, nem sabia que existia. É tudo lindo, avó!
Coisas minhas sem importância, Matilde. Como viste, são panos sem grande valor, com pouca utilidade hoje em dia e quase ninguém reparou neles. Nem o teu avô. Pouca valia têm a não ser para mim, porque me guardam segredos, histórias, vergonhas e medos. Uma vida.

No fim do jantar, Matilde ficou e dormiu na casa dos avós e pela primeira vez ouviu histórias de passados distantes, formas e opções de vida muito diferentes da sua e que desconhecia a existência. Compreendeu finalmente certos silêncios, olhares baixos e vozes obedientes e por fim, descobriu arcas de ferro, baús de câmbala, gavetões de cómodas antigas, carregados de mil peças de linha branca, perfumadas e por estrear.
Nessa mesma noite, Matilde aprendeu a fazer crochet com as mesmas agulhas de alumínio, que a avó usava em solteira e ouviu todas as instruções muito atenta: ponto corrente, ponto baixo, meio ponto alto, ponto alto, ponto alto duplo, ponto alto triplo, ondulado, azaléia, ostra, tijolo, pastilha, ziguezague, barra, bico, esmeralda, pico, colunas anjour e ... nunca mais parou.

A partir daí, combinavam lanches cerzidos a linhas e agulhas, reuniões de pontos simples e laçadas, mais pontos rede, pontos segredo e pontos relevo e ao domingo à noite, chás e bolo de claras caseiro, para desanuviar a tensão do ponto.

A avó, já não guardava nenhum trabalho nos cantos dos armários ou em gavetas fundas.
Com Matilde, aprendeu a dar-lhes outro rumo, a mostrá-los e exibi-los, quando a neta, no dia do seu aniversário lhe espalhou pela casa, uma adaptação feita por si, dos velhos e eternos companheiros da avó Maria.


(clicar na foto para aumentar)

26 comentários:

Pitanga Doce disse...

Sabes que ainda hoje muito crochê se faz em Portugal, principalmente no interior. Baús imensos, cheios até ao cimo. Cheios de crochê e esperas, e noites longas enquanto não ouvem o ruído da porta de quem chega do café de jogar as cartas. De quem no, Inverno, deixa o casaco pendurado na cadeira da sala porque cheira a tabaco e vinho. E nem todas são avós e nem Marias e algumas até lutam contra o destino. Quando se cansam, começam a ocupar os bancos de espera dos Centro de Saúde e a trazer para casa remédios para a alma.

Sei do que falo, porque acompanhei algumas delas, e via os rostos de espanto quando o "Senhor Doutor" dizia-lhes que não tinham nada no coração.
- Mas como, se dói tanto o peito???

Desculpa-me Patti se me estendi. Deste assunto eu entendo e até fui mal interpretada quando quis ajudar. Espero que não o seja também aqui. Não por ti, é claro.

beijos doces em noite com DVD

Patti disse...

Pitanga:
Tudo verdade!

salvoconduto disse...

Aquilo é que eram tempos...de solidão, que é que esperavas que eu fosse dizer? Agora essa do espera-maridos sempre julguei que era o rolo da massa e por isso vim sempre para casa cedinho e direitinho.

Gi disse...

É por este tipo de vivências que observei que detesto crochet e coisas feitas em crochet;
Adorei o teu texto e as imagens são bonitas, mas crochet: nunca;
O crochet serviu de castigo a algumas amigas minhas: "vais ficar ali sossegada e de castigo vais fazer um saco de guardanapos, uma pega, etc.".
Em contrapartida adoro bordados.

Vekiki disse...

Patti, adorei a tua história. Gostei principalmente porque tive uma Avó Maria na minha vida, que foi mais minha Mãe que minha Avó e que me fez centens de peças em crochet para o meu enxoval. Agora já não se usam os naperons nem as colchas. Estão guardados e são bocadinhos dela que estão comigo, sempre. Em contrapartida há uma toalha que ponho sempre nas Festas. Assim sei que Ela, Avó Maria, continua a fazer parte do meu dia a dia.
Beijos.

Precis Almana disse...

O lado bonito é precisamente que o crochet são as avós... E, como disse a Vekiki, as nossas avós ficam connosco assim. Sei fazer crochet, mas sempre gostei mais de fazer tricot, talvez por se traduzir em coisas que uso (e não uso os naperons e as colchas).
Independentemente da actividade, os teus textos são tão agradáveis de ler!

Ka disse...

Lindíssima esta história!!!

Lembrou-me muito a minha avó porque já viúva e a viver sózinha era assim que se entretinha e tenho muita coisa feita por ela :)

Beijosss

Si disse...

De crochet se construiam muitas vidas, resistentes no ponto, mas tão vazias no entretanto de um ponto e outro...
Mesmo sem colchas nem naperons, acho que hoje se constroem relações com fiadas de colunas cada vez mais afastadas e frouxas.
(Escusado será dizer que adorei o texto, né??)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tenho uma irmã, muito mais velha do que eu, que cabe lindamente neste retrato. A diferença é que enviuvou cedo, mas continua, ainda hoje, a fazer o crochet com o mesmo ritual com que esperava o marido ( médico) sempre sem horas para chegar a casa. Faz coisas lindas como a que a Patti aqui nos mostra, mas não tem uma Matilde que lhe reconheça os méritos.
Li este post com um "frisson"!

pedro oliveira disse...

É por estas e por muitas outras que os avós e os netos têm, normalmente, uma relação tão próxima e os avós ganham nova vida com eles. Eles entendem-se ecomprendem-se ás mil maravilhas, as pontas da vida tocam-se.

annie hall disse...

Ternurenta e sensivel como sempre a sua escrita.
Quem não herdou um bau cheio de toalhas , colchas ,naperons feitos por tias ou outras mulheres da familia ? Tanta solidão tecida em bonitos e complicados pontos .

littledragonblue disse...

Bela história, embora que por muitas vezes o crochet possa ser visto como um acto de solidão, ele é igualmente um acto de cultura, sabedoria e riqueza.

Um beijinho e votos de uma boa semana

SONY disse...

patti,

sem dúvida que tradições como esta acabam por se perder no tempo moderno! Mas são lindas. Eram mesmo "espera-maridos" era com este crochet enorme e perfeito e pormenorizado, com agulhas e linhas tão finas (que hoje nós não teríamos olhos)que os tornava belos. Qual avó do passado não terá feito o seu crochet? As minhas duas já falecidas eram peritas em fazer crochet, ainda na casa da aldeia existe uma arca com muitas coisas , que ninguém se atreve a usar...é um pedaço da minha avó Maria que está guardado ali...obrigada por estas palavras, lembraste-me a minha avózita.

jito,
sony


Olhó little :-)

paulofski disse...

Oh mãe ainda agora chegaste do serviço e já estás a bordar? Neste lençol estou a bordar o teu nome e aquele será para o do teu irmão. Vês aquelea colcha, um dia farei uma para o teu enxoval. Assim foi e assim é, obras de arte sem preço.

1/4 de Fada disse...

Nem imaginas como senti a tua história! Fez-me lembrar tanto a minha avó, nem imaginas... também ela fazia crochet, ensinou-me a fazê-lo, bem como a coser e muitas coisas mais. Chamava "liseuse" ao que tu chamas espera-maridos e também o usava. Uma vez, no início do meu casamento, preocupada com o que me ouvia dizer sobre emancipação feminina, fez o seguinte comentário: "Filha, há coisas que não são dadas ao homem!", que foi ouvido pelo meu ex-marido e deu uma imensa gozação! E no entanto, semanas antes de morrer com 93 anos, já com imensa dificuldade em falar, deu-me todo o seu apoio na minha vontade de pedir o divórcio, ela que sempre tinha defendido a obediência feminina...
O teu post trouxe-me de volta a minha avó, muito obrigada, Patti.

BlueVelvet disse...

Muito bonito este texto.
Julgo que mais fácil de ontender para quem teve uma avó assim.
Eu ti ve e foi ela que me ensinou a fazer crochet, tricot e a cozinhar.
Gosto de fazer tricot, mas renda nem por isso.
Tenho muitas coisas que fiozeram parte do meu enxoval guardadas. Lindas.
Pensei que as daria a uma filha, mas filhas não vieram e às noras, quando as tiver, não me apetece muito. A ver vamos:)

Teresa Coutinho disse...

Adorei a história, bastante comovedora. Realmente trabalhos feitos por avós têm outra beleza.

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Patti,
e no entanto... a mais inesperada das vozes, a de Maria Filomena Mónica, diz algures que tem pena é das Mulheres de hoje, a quen não se exige menos do que serem triunfantes na carreira, educar os filhos em tempo comprimido e, ainda por cima, mostrarem-se inigualáveis na cama.
O crochet tinha du bon. E se os Homens não eram sensíveis a todo o sentimento investido nele, estou convicto de que muito do Amor que existia realmente, apesar do que a Literatura e a Sociologia tentam negar, se acolhia à imagem de paz que essa postura dava no reduto que, se não era o repouso do guerreiro, era o de tanto lutador menor. A transmissão da sensibilidade conexa a uma Mulher com uma geração de intervalo é muito bem observada, não se trata de caso isolado, vejo-a também na minha família.
E sabe... tenho a impressão de que só a Minha Amiga poderia escrever este post. Com a Mestria costumeira.
Beijinho

de dentro pra fora.... disse...

Nâo tive a sorte da Matilde porque não conheci nenhuma das minhas Avós, mas aprendi a fazer crochet, confesso que não gosto muito, gostei mesmo foi da cara nova que a Matilde soube dar aos trabalhos.

Como já vem sendo habito mais uma historia para o livro em branco da 'Clara'

PS: já pensaste em participar no concurso de novos autores do COntinente?

Miepeee disse...

Apesar de nao ser apreciadora de croche nem tao pouco saber fazer, gostei muito do texto. Pena que nem todas as pessoas tenham uma Matilde que lhes reconheca o valor.

Tá-se bem! disse...

Patti, adorei este texto! Lindo! Chamou-me a atenção o titulo "espera-maridos".

Das pessoas com quem falo, quase todas desconhecem esse termo.. eu associei imediatamente! :)

Eu ainda guardo um "espera-maridos" que pertencia à minha mãe.. durante muitos anos não percebi porque se chamava assim..

Até que um dia, entendi tudo!

Beijo :)

Filoxera disse...

Ainda ontem sugeri à minha mãe: não estavas disposta a fazer uns vestidos de croché para os bonecos da tua neta?
Para os meus ela fez vários, e até costurou. E hoje as coisas são bem mais caras...
Beijos.

ana v. disse...

"Espera maridos" é também o nome de uma sobremesa, que se encaixa na perfeição neste belíssimo retrato de uma geração de mulheres... à espera.

Gostei de ler-te, como sempre.

LeniB disse...

Só conheci a minha avó paterna e, de facto, não era nada dada a estas artes da agulha a que te referes. Porém, sabia cerzir com mestria, coisa que hoje em dia já quase ninguém sabe o que é.

Anónimo disse...

Espera mitigada pelos crochets, pelos bordados, pelos segredos dos sonhos nunca vividos.
Horas intermináveis de solidão, de revolta também, mas revolta comprimida no silêncio dos lábios, na amargura do coração e na dilig~encia de que nada faltasse ao seu amo e senhor.
E como retribuia seu amo e senhor tais dedicações?
Com a maior indiferência, achando tudo isto como a coisa mais natural.
Aqui presto a minha homenagem aesta legião de mulheres silenciadas pelas convenções sociais e por mitos educacionais que são transmitidos de mães para filhas.
Parabéns por este post muito bem escrito e elucidativo da verdade dos tempos.
Maria Antonieta Mariano

Patti disse...

Mª Antonieta:
São essas suas palavras a mensagem fundamental desta minha história.
Bem vinda ao Ares e volte sempre.