quinta-feira, 9 de outubro de 2008

post bem educadinho


Como muita da minha vizinhança sabe, eu também tenho outro blog pessoal, só que é de fotos. É amadorzeco, a máquina fotográfica é micha, e as fotografias dizem tanto de mim como as minhas letras aqui no Ares. É um foto-blog e como não faz sentido para mim colocar lá um texto em forma de recado, posto-o aqui hoje.

O Do Lado de Cá da Lente é um blog ingénuo, feliz, inocente, simples, quase plebeu. Não tem fotos da minha cara, nem de quase ninguém; são basicamente pormenores, paisagens, apontamentos, passeios, natureza, inusitados, tradições e aí por diante. É simplório mesmo.

Qualquer alminha que o visite por muito torpe que seja, topa logo que apesar de ser um foto-blog, não é um foto-blog de pilas. Nem de maminhas perfeitas, ventres lisos, rabos luzidios, vaginas escancaradas, sexo ao vivo, posições do kamasutra, fetiches vários e corpos transpirados. Pronto, nada disso. É só mesmo um foto-bloguezinho suburbano.

Então, eu queria agradecer as visitas do senhor que tem um foto-blog de pilas e dizer-lhe que não é necessário tentar travar conhecimento com o meu blog de fotos básicas.

O seu blog de pilas, acompanhadas de lindos versos não me diz muito, sabe? Não é uma questão de pudor da minha parte, é mesmo falta de interesse nas suas pilas todas. Nas grandes, nas pequenas, nas de pé, nas deitadas, nas acompanhadas, nas torcidas e nas outras. Depois o zoom que usou e desculpe lá a minha audácia em meter-me na qualidade das fotografias que posta lá no seu blog de pilas, não é lá grande coisa. Houve uma, que até agora estou para perceber que posição era a aquela, outra em que o senhor se excedeu nos pormenores e outra houve, que eu juro e que fique já aqui entrevadinha, se não me assustei de morte.
Eu sei que o senhor do blog das pilas tem um aviso de conteúdos, mas como me visitou e comentou, eu quis retribuir a visita e não me assusto com trancas à porta.

Aquelas fotos com rabos redondinhos que escorrerm caramelo, os abdominais das meninas perfeitinhas-perfeitinhas, as maminhas 38 de estrelas de Hollywood salpicadas de gotículas de água e com mamilos arrebitados, é tudo muito bonito sim senhora mas também não estou interessada, obrigada. Diga-se de passagem que são bem mais bonitas do que aquela pilice toda que o senhor tem no seu blog, mas agradeço na mesma e dispenso.


A razão de ser deste meu recado, não se prende por o senhor que tem um blog de pilas visitar o meu blog de fotos e deixar um comentário, dizendo que o meu blog é muito lindo e que gostou muito de o conhecer. Isso não tem problema nenhum e até é normal que um senhor que tenha um blog de pilas, um senhor que tenha um blog sobre o crédito à habitação, um senhor que tenha um blog de receitas só de peixe-frito e arroz de tomate, um senhor que tenha um blog sobre o penteado da Sarah Palin, venha ao meu blog comentar que gostou muito dele. Até aí tudo bem. Cada um gosta do que gosta e acabou a discussão. Aliás, nem se começa uma por causa disso.

O que já não é normal e eu confesso-lhe que detesto e daí a razão de ser deste meu recado, é que o senhor que tem um blog de pilas, vá a outros blogs, que por acaso eu sou visita assídua e deixe lá o mesmíssimo comentário, letra, por letra, vírgula por vírgula … no fundo senhor que tem um blog de pilas, o senhor fez copy-paste do seu comentário! Blhéck! Seu batoteiro.

Isso irrita-me um bocado, sabe. O que o senhor fez ainda é pior do que aqueles que nos visitam e escrevem do tipo, vá lá filha toma lá um comment: lol; és a maior; que lindinho; contínua assim; visita também o meu; olá vim dizer bom dia, etc, etc, etc.

É estúpido não acha? Ridículo e pobrezinho, até. Ninguém gosta de esmolas e favores.

O seu copy-paste, senhor que tem um blog de pilas, é dez vezes pior.


Não gostei. Pronto, foi isso. Visitei-o e quando vi aquelas pilas todas,rodeadas de versos seus, até pensei: e agora o que é que vou dizer ao senhor? Eu a comentar poesia sou uma nulidade, agora poesia envolta naquele mar de pirilaus que o senhor lá tem, ainda me dificultou mais a tarefa. Que pila iria eu escolher, para deixar umas palavras de agradecimento pela sua visita, senhor do blog de pilas? Um post de pila só, única, individualizada e destacada ou um post assim, com muita, muita pila? Um post com uma pila mais apresentável ou um, com aquelas muito estranhas que o senhor lá tem? Aquele outro, com uma pila reflectida num espelho, que presumo seja o senhor e a sua rica pila, ou o outro post de pilas em actividade explícita?

´Tá a ver, daquilo que o senhor me safou e se poupou a si também. Eu ainda dizia para lá, algum disparate, sem sensualidade nenhuma e o senhor se calhar também não ia apreciar. Quem tem um blog com fotos de pilas, está no mínimo à espera que alguém vá comentar com frases eróticas e libidinosas. Não gostaria que eu dissesse qualquer coisa como: eh pá, ‘ganda pila meu! Ou: shake it out, ‘ma men! Ou ainda: vai-te a elas, oh meu macho do &%$*£#%€!


E diga-se de passagem que o seu blog de pilas não precisa das minhas palavras para nada, pois olhe que eu demorei-me ainda uns dois a três minutos por ali e vi para lá pilas, com mais de 50 comentários!

Depois de eu verificar o seu desastrado copy-paste, fiquei desconfiada de si e não publiquei o seu inocente e simpático comentário, até porque o senhor só se demorou no meu foto-blog uns míseros sete segundos. Como é que o pode ter achado lindo e gostado assim tanto de o conhecer?

Ou o senhor é tão veloz a ver blogs como o é a postar pilas, ou então, não viu coisíssima nenhuma do meu blog e anda à caça de visitas, comentários, possíveis encontros, um bate-papo no msn ou ainda mais pilas.

Portanto, pode ir pilar para outro lado.


Espero que tenha gostado da musiquinha. Escolho sempre esta para os momentos especiais. Voluptuosos, digamos assim.

Conversados?


nota: quem me aparecer no Ares, através das ‘search words’ do google, à procura de ver pilas….é tudo a bazar daqui para fora! Ouviram bem?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

sossego II


Amo as arriscadas e matreiras vírgulas, que me travam a ponta dos dedos.

Pertencem-me devaneios que começam a correr disparados sabe-se lá para onde, e as pobres sustentam-me a queda, quando avanço sem pensar.

São irritantes já vos disse um dia, mas dou-lhes primazia.

Servem-me de intervalo à imaginação pois ela não me vem da vontade, flui e precisa de sujeição, pelo menos a mim, pois sou eu que lhe dou vazão e a escoo.

Como sabem do meu encanto por elas, as pequeninas vírgulas abusam. Parecem mini-convulsões que tropeçam entre as palavras que elejo, colam-se à última letra como se dela fossem parte inerente e torna-se difícil fazê-las entender, que o seu lugar não é ali.


Que eu só me queixo, que lhes ralho e tenho pegas de meia-noite com elas. Dizem-me amuadas. E que a culpa da sua excitação é toda minha porque ninguém me manda adjectivar, exagerar e escrever de forma desalmada. Que é quase desumana, a maneira como lhes exijo presença de modo contínuo e incessante, no meio dos meus textos. Que com os pontos finais nunca me ouviram refilar e até os parêntesis parece que para mim não existem, tal é a mania que tenho de recorrer a um par de vírgulas, para os substituir.

Elas sabem que as adoro, mas às tantas irritei-me. Querem lá ver as meninas! E eu faço o quê se não gosto de parêntesis, chavetas, reticências, travessões, dois pontos, ponto e vírgula e até evito ao máximo as exclamações e as interrogações? E perguntei-lhes mesmo se eram mais felizes com o outro, que tem vezes que nem sequer as utiliza. As vaidosas adoram aparecer e dar nas vistas, mas já sabem que com ele não fazem fita. Encolheram-se logo. Sorrisinho amarelo e ponta da cauda encolhida entre a perninha atrevida.

Que eu também não exagerasse e não as castigasse. Elas até eram bem felizes com umazinha simplória qualquer, isto é, comigo. Teria era de ser um pouco mais compreensiva e tentar avisá-las dos meus pretensos ímpetos literários. Que não me atirasse ao teclado e à pobre da lapiseira como uma desenfreada, porque o que me vem à cabeça só a mim pertence e não se dissipa para lado nenhum. Que eu não tinha horas para as convocar; que escrevia, apagava, riscava, alterava, gatafunhava, trocava, anulava, acrescentava, ria, chorava, irritava-me, ligava a música e só então sossegava.

Eu, e finalmente elas também.

Prometi-lhes que ia pensar.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

putrefacto - #7

pintura de michael knowlton
Luís era cobarde. Sempre fora. Até para sair das entranhas da mãe, tinha demorado mais vinte dias que os irmãos. Desde pequeno que chorava por tudo e por nada, ficava sempre perfeito no papel de vítima, alimentava-se da mania da perseguição, fomentava intrigas, possuía ódios de estimação, até de estranhos, por pura inveja e embirração, ou só porque lhe apetecia. Figurinha que vivia pela calada e que na frente dos outros era uma pura alma, dócil e pacata. Nunca tivera uma namorada de jeito, porque cobiçava sempre a dos outros, não chegou a aluno mediano, porque era cábula e amigos teve poucos ou nenhuns, porque era vazio. No trabalho era frustrado, inconformado e viva sempre desiludido. Trabalhava muito mais que qualquer outro, tinha colegas invejosos, os chefes eram uns incapazes e os clientes uns ignorantes e chatos que lhe davam cabo da cabeça. Dizia ele. Tanta era a amargura dentro de si e tamanho era o esforço para se portar com uma postura cândida perante os outros, que começou a sofrer de pesadelos nocturnos, visões e episódios alucinogénios.

Como descarregar então tanta raiva, guerras internas e sobretudo a solidão de uma vida, que tinha até agora dado muito poucos frutos? Descobriu o prazer de soltar o ódio inconsciente que tinha de si próprio, sob a forma de manifestos públicos sem assinatura e tudo na sua vida dupla se tornou mais simples de digerir. As borbulhas pestilentas do seu coração rebentavam o pus amarelo, naqueles textos alucinados e fantasiosos, onde desabafava as infecções da alma, sempre sem cara e sem nome. Intitulava-se Hiena e nenhum outro pseudónimo seria tão apropriado. Eram páginas de frases empolgantes, tentativas de enxovalhos públicos e discursos triunfantes, proferidos em cima de um palanque invisível e oco, aguardando que a plateia o aplaudisse em estridente ovação. Ao fim da tarde, logo a seguir a mais um dia cão de trabalho e com a cabeça a fervilhar de pequenos vermes e insectos, escrevia desalmadamente mais uma página de agonias, dirigida ao último indivíduo que o tinha irritado, que não lhe tinha dito bom dia, ou que tinha umas calças novas. Na calada da noite, colava-as em locais estrategicamente escolhidos, como a parede do café central, a estátua do poeta da vila, a porta dos correios, a entrada da capela, a paragem da camioneta e nas bancadas do campo da bola. Regressava a planar para casa e era aquela a única noite da semana que dormia bem. Prazeres efémeros que a cobardia lhe trazia.

No início, os habitantes da vila que até nem eram assim tantos como isso, mas que eram pessoas pacatas, sem maldade e sobretudo provincianas, liam aquelas missivas, trocavam uma frase ou outra sobe o assunto, seguiam com a sua vida e nem atingiam que estivesse ali, naquelas feias palavras um destinatário, e muito menos o próprio visado entendia que aquilo era com ele. Nada do que estava escrito tinha razão de ser. Era gratuito. E as carapuças de pouco serviram. Compreendiam tudo como a obra de um autor atormentado, que talvez por ser muito feio, teria vergonha de se mostrar e revelar-se ao povo. Não o levaram muito a sério e tiveram pena dele. Isto não lhe agradou sobremaneira, o impacto pretendido e a tentativa de injectar o medo na população, fora gorada. Dedicou-se a uma empreitada, cada vez mais empolada de missivas exacerbadas e aí, o povo abandonando a ideia do autor pobre coitado, passou a interpretá-lo como ele realmente era: isolado e com uma auto-repulsa latente. O número de manifestos aumentou, os absurdos escritos subiram de tom e as páginas transformaram-se rapidamente numa novela de traços autobiográficos. E o Hiena, sem se dar conta, tornou-se no seu personagem principal, um ser ignóbil, possuído por algo maléfico que o colocava fora de si. Mais tarde ou mais cedo, alguém repara no elemento cobarde, ele revela-se pelo que diz e depois pelo contrário, pelo que não faz. É esse o seu ponto fraco, é por aí que quebra e cai. Pelo recuar. Pelo agir na sombra.

Concluíram que na vila morava um louco encapuçado, provavelmente com dupla personalidade e que se movimentava no meio deles sem se fazer notar. Como reagir, enfrentar e entender um ser assim, que odeia de borla, sem razão aparente, sem motivo sequer? Não foi o Hiena, que por si só, os fez reunir e reflectir perante aquela nova realidade e os colocou a trocarem ideias. A tomada de consciência da existência de alguém assim, despertou a população para dentro de si própria, da sua vida, do seu dia-a-dia, da sua vila. Acordaram de repente, uns para os outros.

Repararam, talvez pela primeira vez nos cabelos brancos da mulher da mercearia, nas olheiras do homem do talho, na solidão do sacristão, nos olhos infelizes do engraxador de rua, no alcoolismo do presidente da junta, na simpatia da funcionária dos correios, no frio que passavam as prostitutas da rua, da entrada da vila, dos filhos pequenos que elas criavam em semi-presença, na agonia financeira da recente viúva do lavrador, no destino sem horizonte, incerto e injusto do jovem que não conseguira ir estudar para fora, no cuidado que o jardineiro dedicava aos canteiros, no fiado sem fim que o dono do café suportava, na bondade da padeira, no abandono do parque infantil, nas ervas daninhas da escola primária, na miséria extrema do mendigo da vila, na vida apática dos velhos do lar, na exclusão das duas famílias ciganas. E por fim, no cotão opaco do egoísmo, que se foi acumulando nos seus enormes umbigos.

Quando se abre os olhos ao nosso redor, podem passar muitas noites seguidas, que eles dificilmente voltarão a fechar como antes. Aquilo que se recebe em troca quando se praticam atitudes de altruísmo e de solidariedade sem esperar nada, não tem qualquer preço. É muito maior o retorno porque a oferta é desinteressada. E quando se começa, é improvável que se consiga parar. Aqueles homens e mulheres e aquela vila modificaram-se para sempre. Depois de muitos anos, o jovem, agora homem, a quem deram a mão para ir estudar para a grande cidade, contou a história no seu livro de estreia.

A seguir à introdução da obra, feita pelo reabilitado presidente da junta, o público correu para o autor a perguntar, e o Hiena onde está, apanharam-no, desistiu das missivas, o que foi feito dele, quem era? E isso interessa? – Sorriu ele.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

[2] dizer bem


Numa altura em que tive de optar entre, manter a Beatriz no ensino privado ou mudá-la para o público, tomei a segunda opção. Havia no entanto a possibilidade de não ficar colocada na escola eleita, pelas vagas que não chegam para o número de alunos a querer lá entrar. Felizmente não aconteceu e por lá ficará até ao 9º ano e só lhe falta mais um. No entanto, tivemos ainda de desembolsar 400€ para o colégio privado, de forma a garantir lugar. Os euros foram para a inscrição, para uma mensalidade de não sei o quê e para mais uma reserva de outra coisa qualquer. E ainda passou uma tarde inteira a fazer não sei quantos testes de aptidão. Vá lá, ainda devolveram metade do dinheiro, o que é uma sorte. Recebi foi o cheque quatro meses depois…

E então, entrou na escola que todos desejavam. Para ficarem com uma ideia do tipo de estabelecimento de ensino público que falo, no ano passado ficou em terceiro lugar no ranking das escolas públicas, até ao 9º ano, de todo o país. Os rankings, valem o que valem, ou seja muito pouco, pois é tudo enfiado no mesmo saco com pouco ou nenhuns critérios e só salta cá para fora a média das notas finais dos exames, quer a escola tenha 25 alunos a fazer esse exame ou 500 alunos, quer se trate de uma escola privada de elite com duas turmas do 9º ano, ou uma escola pública de qualquer parte do país com seis ou sete turmas. Já para não falar nas discrepâncias existentes nas várias zonas do país, no inexistente acesso à cultura, internet, condições financeiras, sociais, o diabo a sete e outras tantas que todos podemos apontar. O presidente do conselho executivo, da escola da Beatriz, apesar da óptima classificação da sua, também não concorda com os rankings e na maneira como são feitos, diz que “ não se pode tomar como igual aquilo que é diferente. É extremamente injusto comparar escolas que fazem um trabalho de integração social com outras que nem vale a pena estar a referir”.

Esta é uma escola que fica sempre entre os primeiros lugares nos resultados dos seus exames, mesmo antes de rankings e avaliações do género. A questão aqui não é só a escola da Beatriz ser excelente, a questão é que o consegue ser, contra tudo e contra todos e com grandes barreiras e adversidades pelo meio, como tantas e tantas escolas deste país.

E passo a referir as palavras do presidente do conselho executivo.

É uma escola sobrelotada e o sucesso não vem do nada. Resulta de muito trabalho e de uma cultura construída ao longo de vinte anos”.

Refere que o ponto forte é “o trabalho de cooperação entre todos os professores e que ainda não se falava em supervisões e avaliações e isso já aqui se fazia. Os resultados estão em cima da mesa, são discutidos e procuram-se estratégias para melhorar”. Afirma, que “as notas dos exames nacionais, não são dos professores de Português e dos de Matemática, são de todos. É um trabalho de grupo, assim como o clima da escola, os hábitos de trabalho, disciplina e a maximização do tempo nas aulas”.

É uma escola com 1100 alunos e só com capacidade para 840, com aulas de manhã e de tarde, com uma população muito heterogénea, desde um nível sócio-económico e cultural acima da média até um estrato muito baixo.

Eu sei por exemplo, que durante os intervalos não há nenhum adulto a tomar conta dos miúdos, por falta de pessoal auxiliar. Lá passa um professor ou outro, uma contínua sai do seu pavilhão para os espreitar, ou até o próprio presidente do conselho executivo e os seus dois vices, dão umas voltinhas pelos intermináveis recreios e pátios, para ver se tudo está a correr bem. Não é ele que o diz, é a Beatriz que conta. Sabe de cor o nome de muitos e muitos alunos.

O estado do pavilhão onde os alunos fazem ginástica, é de bradar aos céus. Precisa de obras vai para mais de dez anos. A biblioteca é paupérrima e há vários anos que a escola concorre à rede de bibliotecas escolares. O irónico da situação é que “concorremos para conseguirmos determinado tipo de condições, mas depois somos excluídos porque não as temos”. Não há nada a que não concorram. “Recebemos dois quadros interactivos e mais uma vez, a falta de condições ganha. As paredes dos pavilhões são tabiques e quando se quer fazer um buraco simples, abre-se uma cratera”. Assim, não suportam os quadros ganhos e no velho edifício, as salas são tão pequenas e estão tão sobrelotadas, que não existe sequer espaço para mais uma agulha. Como quase todas as outras escolas públicas, também esta se queixa do excesso de alunos por turma, de tal forma que até uma casa-de-banho, foi adoptada para sala de aulas.

É assim, a velha e carente escola da minha filha.

E os professores são excelentes profissionais, muito exigentes e pouco facilitadores, atentos, trabalhadores incansáveis, preocupados com cada aluno e enviam recados na caderneta, com queixas para os pais com a mesma vontade que elogiam os miúdos e os empurram para a frente. As visitas de estudo são sempre de grande interesse; as actividades e competições desportivas são inúmeras; o dia do patrono da escola é festejado por todos os professores e alunos com trabalhos apresentados, concertos, coreografias de dança, musicais, teatro e momentos de poesia. Organizam-se feiras do livro de português, francês e inglês e olimpíadas de leitura. Existe o jornal da escola, elaborado e muito bem, por um grupo de alunos e dois professores e também tem um blog. Todos os anos se leva a cabo um programa com os escritores nacionais, que visitam a escola e conversam com os miúdos, e já por lá passaram: José Fanha, João Aguiar, Luísa Fortes da Cunha, Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, Luísa Ducla Soares e muitos outros.

E o plano de ocupação dos tempos escolares? Nunca mais acaba: desporto escolar, clube europeu, magia dos sons, clube das artes, viajar no tempo, clube multimédia, english drama club, clube jornalismo, clube de escrita.

Ali, após quatro anos, sei que a Beatriz não tem vida mansa, aprendeu a esforçar-se em dobro, percebe que os bons resultados neste país não são fáceis de atingir e muitas vezes são injustos. Mas sabe que as notas altas que ali tira, são merecidas e não dependem de outras contrapartidas a não ser do seu trabalho e empenho. A minha filha é muito feliz ali, mas eu sou muito mais.

É um prazer enorme ver que o esforço e a dedicação de todos vence, ano após ano, apesar de terem quase tudo contra si.

Mas não devia ser assim.

domingo, 5 de outubro de 2008

[26] há coisas fantásticas, não há?



Aqui não é a "coisa" que é fantástica, mas sim a atitude das crianças.

sábado, 4 de outubro de 2008

[9] ´tou no ir...de fim de semana

largo do carmo

Então como hoje é sábado, lá vai um programinha cultural.

Dia 1 de Outubro foi entre outras coisas, o Dia da Música. E em Lisboa, a minha rica cidade, vai ser, hoje dia 4, palco de vários concertos intitulados de “Música nas Praças” e o melhor de tudo é que a entrada é livre!

Não é um espectáculo? Concertos à 'borliú', espalhados pela capital, num dia de sol magnífico?

Tomem lá a agendazinha e depois digam lá quem é amiga, quem é?

Nós vamos, pode ser que nos encontremos por lá!


Largo Duque do Cadaval


Brass Ensemble - 12h / 16h


Orquestra de Sopros da OML Júnior – 14h

Quarteto de Clarinetes de Lisboa - 19h


Largo do Carmo


Os Pequenos Violinos da Metropolitana - 13h


Coro Sinfónico Lisboa Cantat - 15h / 17h


Ensemble Barroco do Chiado - 18h


Largo de São Carlos


Orquestra Sinfónica Juvenil - 13h / 15h


Orquestra Metropolitano de Lisboa - 17h


Sinfonietta de Lisboa - 19h


Páteo Siza Vieira


Recital de Piano - 12h


Cobras e Son - 14h / 19h


Duo Flauta e Piano - 16h


Piano a 4 mãos -16h


Recital de Harpa - 18h


Ruínas do Carmo


Gala de Ópera da Orquestra Metropolitana de Lisboa - 21h30


E se acham ainda pouco, ora tomem lá outro programa que promete e que eu copiei lá das minhas fontes secretas.


5ª Festa do Outono / 4, 5 Out: 10h-18h



Pelo quinto ano consecutivo o Jardim Botânico da Ajuda, aqui, propõe aos lisboetas a sua Festa do Outono, a decorrer no primeiro fim-de-semana de Outubro.

O evento conta, como habitualmente, com uma programação diversificada de que fazem parte feiras de jardinagem, uma feira de produtos, diversos espectáculos musicais e animações ao ar livre, uma exposição de orquídeas e de bonsais, vendas de plantas, workshops, jogos e concursos, visitas guiadas, a participação da charanga a cavalo da GNR e um espaço inteiramente dedicado ao chocolate.

A festa, além de assinalar a chegada da nova estação, constitui também a oportunidade de descobrir ou redescobrir o mais antigo jardim botânico nacional.

O jardim conta com uma colecção de plantas raras, árvores centenárias e um recente espaço de aromas que convida o visitante à descoberta e ao deleite. #

Preço: 2€ (adultos e crianças com mais 4 anos)

E depois à noite…..CAVALIA! Aqui.


A Beatriz nem sonha! Foi tudo feito às escondidas dela.

Oh mãe, eu pago o meu bilhete, e nunca houve cá nada assim, e são quase todos cavalos lusitanos, e eles parece que pensam mãe, e fazem coisas que eu nunca vou conseguir mais ver na minha vida, e eles andam em pé em cima dos cavalos e sem rédeas, e os cavalos dançam mãe, e são tão meiguinhos e eu pago também o teu bilhete e ……

Não Beatriz, não pode ser filha, os bilhetes são muito caros e nós somos logo três pessoas, e agora foi o iníco escolar e eu já gastei uma fortuna em livros e patati, patatá, patati, patatá, mais blá, blá,blá,blá, blá, blá. Enfim, tangas de mãe e pronto.

Lugares de luxo, primeiras filas e com acesso a uma visita privilegiada às cavalariças depois do espectáculo.

Estou desejosa de ver a cara dela!

Bom fim-de-semana!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

diz que hoje é o dia do sorriso


(Sabias Sorrisos?) Invenção de gente que não deve ter nada de mais importante para fazer. Bom, antes do sorriso que do choro. Perdida de riso, fiquei eu na quarta-feira de manhã, na sala de espera do consultório. Todos sabemos que salas de espera, sejam de que tipo for, são prolíferas em conversas várias e descabidas, com pessoas que não se conhece de parte nenhuma e também em testemunhar comportamentos bizarros e acontecimentos suspeitos.

Senhora nº 1: Sapataria Preferível-homem, senhora e criança; isto era o que tinha escrito o saco de plástico lilás, que uma senhora levava consigo, bem agarradinho ao peito. Sabe lá, começa ela para mim, sem que eu lhe tivesse perguntado nada, desde que fui assaltada que nunca mais andei de carteira, quando saio de casa. Até p’r’á bica, eu levo a nota presa na alça do soutien.

Senhora nº 2: Esta médica é muito boa e eu já tinha sido atendida por ela em 2005 (!?!?- devia estar a falar sozinha)

Senhora nº 3: Mas então a médica foi onde agora? Já saiu daqui, vai para vinte minutos e nem hora de almoço é ainda! E a malta à espera dela! Fazem o que querem da gente.

Homem nº 1: Já tiraste a senha, Judite? Qual é o teu número? Dá-me mas é a senha para a mão, senão não és atendida. Tens os exames à mão? Fechaste o gás? E as chaves de casa, trouxeste? Vê lá, se é como da outra vez e ainda tenho de chamar os bombeiros. Só me faltava mais essa! Perdes sempre tudo. Olha, vamos mudar de lugar, ali para a frente da televisão. Já foste à casa-de-banho? Cala-te, cala-te, deixa-me ouvir o Paulo Bento.

Empregada nº 1: Onde é que a senhora pensa que vai? Não se pode entrar aí! Não sabe ler?

Empregada nº 2: Olhe é só uma pergun….TEM DE TIRAR A SENHA E ESPERAR A SUA VEZ! Mas era só mesmo uma informação e ainda faltam trinta e sete números e ….. TEM DE TIRAR A SENHA E ESPERAR A SUA VEZ!

Senhora nº 3: Sra. D. Isabel Leitão, sala 2.

Isabel Leitão? Chamaram Isabel Leitão? Eu chamo-me Isabel Leitão. Se calhar sou eu não é? Sala quê?

Senhora nº 4: Ai credo, duas horas à espera de uma consulta! Já não me aguento com a fome que tenho.

Senhora nº 5: Oh minha senhora, quer uma bolachinha? Eu para estas coisas venho sempre garantida. A mim, já não me apanham aqui outra vez sem farnel.

Empregada nº 3: Ai filha, a que horas vais almoçar? Isto hoje está impossível e ainda para mais a outra baldou-se e tenho de fazer o trabalho de ela e o meu.

Senhora nº 6: Oh Zé, dá-me aí a revista com a Fátima Lopes. Diz aqui que está grávida outra vez, mas eu cá para mim está é mais gorda. Estas tipas vivem bem, é só jantares e festarolas. Não achas, filho? Olha, vê lá bem o pescoço dela? E esta agora…ah, já largou este…. ao menos com o outro demorou mais tempo. Estas gajas … E esta, ‘tás a ver esta aqui? É aquela amiga, da prima da nossa vizinha do 3º andar. Diz que anda agora uma peneirosa e uma caloteira de primeira. Deve dinheiro em todo lado. É para poder andar de cú tremido pelas festas e sempre de toillete nova.

Senhora nº 7: Oh homem, mas porque é que tiraste duas senhas? O quê? Para se não ouvirmos o 37, respondermos ao 38? Que disparate é esse agora? Oh valha-me Deus!

Homem nº 2:

Homem nº 3:

Senhora nº 8: Ah e fiquei muito mal, nem queira saber. Aquilo já estava era estragado, eu bem vi que o frasco já estava a meio, quando o comprei, mas não liguei. Pensava que era mesmo assim como os pacotes de batatas fritas, que a gente compra aquilo e depois de abrir já só tem metade das batatas lá dentro e o resto é ar, sabe como é? Foi isso de certeza, o xarope não estava em condições…

Senhora nº 9: Oh mãe, eu quero fazer xixi, estou tão aflitinhaaaaaa.

Olha, mijásses em casa, quando eu te mandei! Agora aguenta-te!

Senhora nº 10: Patti, Ares da Minha Graça, sala 3.

Felizmente! Senão com esta do “mijásses em casa” (palavra horrível) eu juro que tinha explodido às gargalhadas.

Homem nº 5:

e também

Homem nº 6:

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

just in case


Até esperou pela sua vez bastante descontraída. O exame não era urgente nem muito preocupante. Mas fez-lhe minhocas na cabeça, aquela frase no último relatório, em que a médica tinha sugerido “um controlo evolutivo a curto prazo”, o que não era usual. Talvez ela achasse melhor repetir o exame passados seis meses, por pura vigilância. Para despistar. Colocar dúvidas de parte. E foi o que se passou e tudo acabou em bem. Só seria preciso voltar daí a um ano, para exames de rotina.
O que é que acontece nestes casos, em que tudo corre bem? Em que se sai de um gabinete médico sem notícias más? O que é que se passou ali? Nunca deram por nada? Foi a vida. A vida, que mais uma vez falou connosco e nos deu novamente outra oportunidade. E nós nem sequer alcançámos. Não ligámos. Ignorámos. Não percebemos que nos foi dada de bandeja, outra chance. Mais uma. Não guardámos o momento. E passámos à frente.
Só entende a sério, quem lá ficou depois do exame para conversar com a médica no gabinete. De porta fechada. Conversa em tom baixo, pausada, olhos nos olhos, uma mão apertada na outra, espanto num olhar, compreensão no outro. Alguém que já não vai olhar para este filme* de esperança e renovação, da mesma maneira calma, como eu faço agora.
(*) oferecido por um amigo.

chamem por mim, que eu vou - #6


foto annemiel's phtostream

A bem dizer, era popular, espevitada e muito dada. Emanava um cheiro próprio. Único. Mas só. Não havia ali aquelas coisas de mãozinhas com muitos dedos e segredos ao ouvido. Respeitinho era bom e ela gostava.

Quem não gostava nada eram as outras. Galdéria, desfrutável, manipuladora e até consumida lhe chamavam.

Era uma rapariga quente, preenchida q.b., com trejeitos lascivos, gestos desenvoltos e de andar sugestivo. Respirava volúpia, deitava lúbricos olhares, muito escorregadios e da sua boca saíam frases cheias, que deixavam os rapazes mudos e sem resposta, mas em estado de graça e embriagados com aquele perfume que se soltava da sua pele. Tinha o mérito de os colar ao chão à sua passagem, sem saber o que dizer, quando ela lhes atirava um simples bom dia. Ficavam espantados e tolinhos de todo, sempre que ela respondia tranquila à pergunta, oh coisinha, como te chamas? Belisária, e ria-se.

Oh filha, que ficas falada, apoquentava-se a mãe. Que disparate, agora já não se pode ter dois dedos de prosa com os rapazes que sou logo tema de conversa? E não ligava nenhuma, seguindo a sua vida como sempre e evitando dar importância ao que o restante mulherio dela cochichava.

Aproximava-se a altura da festa da aldeia, que era o momento alto para toda a gente. A feira, a procissão, o fogo, as tasquinhas, as rifas da paróquia e por fim o almejado bailarico, onde todas as raparigas casadouras, ansiavam por conhecer moços das aldeias vizinhas e arranjar até noivo. O mês anterior era um ror de idas e vindas à cidade próxima, para escolherem vestidos, fitas, laços, colares e brincos, sapatos de salto. Toda uma quantidade de enfeites que as iam pôr divinas perante, quiçá, o rapaz dos seus sonhos.

Belisária não tinha dinheiro para tais luxos e diga-se que também não precisava deles. Já conhecia quase todos os rapazes e nenhum lhe tinha ainda agradado, apesar de ser a preferida da maioria deles. Ao baile desse ano não sabia bem porquê, mas não lhe apetecia muito ir.

Belisária, a primeira dança é minha; não te atrases como no ano passado; olha que eu venho de longe para te ver; a festa não começa sem ti; já me prometeste duas danças; levo-te um presente; e eu, flores do jardim da minha mãe; Belisária a que horas chegas? E durante uma semana a rapaziada não parou de andar à volta dela com perguntas, convites, insistências, propostas, ofertas e inseguranças. Dizia a todos que sim, eu vou, não, não me atraso, está bem eu danço contigo, mas aquela recente dor no peito, teimava em picá-la. Não falou disso à mãe e lá foi ao famoso baile da aldeia.

Nem fazia caso da entrada triunfal, que sempre provocava a sua chegada. Eles a rodeá-la, precipitados e acanhados e elas a olharem-na invejosas e maldizentes. Será que este ano ficamos de novo sem pretendente? Mas ninguém consegue ver que ela traz sempre o mesmo vestido coitadinho e sem cor? E aquele perfume? Parece que embebeda os homens!

Sentiu-se mal, logo na primeira dança, a dor picou-a fundo e agora com mais força. A respiração foi-se, viu tudo à roda, deitou um último sorriso à mãe, que corria na sua direcção, escorregou e dormiu para sempre. Mas o seu perfume inebriante ficou consigo.

O enterro foi dois dias depois. Gente de todo o lado veio dizer-lhe adeus, naquele dia de calor intenso. Afinal Belisária, gostassem dela ou não, era conhecida por tudo o que era aldeola e arredores. O perfume do seu corpo era célebre e a brisa sempre o espalhara e lhe dera fama. Os homens tristes, os rapazes de rastos e sem préstimo e elas compenetradas do seu papel de sentidas, mas aliviadas. Nunca um defunto tinha recebido tantas flores. Formou-se um monte em cima da sua campa, como se fosse um pequeno outeiro perfumado e colorido. Partiram dali, completamente extasiados com aquele intenso odor.

E depois choveu. Chuva mansa de Verão. Que acalma as hostes, beija a pele, afaga os clamores e fixa as fragrâncias. As gotas breves salpicaram a imensidão de flores, que deram risinhos agradecidas e assim, mais frescas e leves foram descansando e deslizando pelos poros de terra permeável, debaixo de si. Chegaram até onde repousava Belisária. Uma e outras, conciliaram-se num devasso aroma nocturno. O calor que ainda remanescia do seu corpo morto, envolveu-se no odor intenso das satisfeitas flores e dessa união nasceu um perfume exclusivo e tão singularmente poderoso, que a terra que o sobrepunha não aguentou o aperto e resolveu rasgar fendas para o deixar fluir e perder-se no ar.

A aldeia dormia de janelas abertas para as estrelas, o povoado era pacato e sem surpresas nocturnas e o calor de Verão, excessivo. Foi desta forma, que o perfume nascido da morte de Belisária, se imiscuiu sorrateiro pelo quarto das moças encalhadas.

Acordaram muito cedo, destapadas e sem roupa no corpo, despenteadas. De sorriso aberto na cara. Que noite aquela, plena de sonhos, arrepios e sobressaltos. Saltaram da cama e abraçaram a manhã com força, debaixo de um duche frio e revigorante. De cabelos soltos e desalinhados, alargaram decotes de blusas brancas, subiram bainhas de saias rodadas, enfiaram tamancos de tornozelo à mostra, perfumaram-se com a textura das pétalas que encontraram no parapeito da janela e saíram afogueadas para a rua.

O povo da aldeia estava pasmo. Incrédulo.

Moças casadouras, ainda ontem recatadas e serenas, portavam-se agora de forma totalmente descabida. Riam e falavam alto, sentavam-se de pernas quentes e afastadas sem qualquer réstia do seu antigo pudor, lançavam olhares lânguidos aos pobre moços embasbacados, chamavam-nos com vozes roucas, roçavam os ombros cálidos e nus pelos seus olhos esbugalhados, envoltas num poderoso perfume que jamais alguém sentira por aqueles lados. Nem o cheiro de Belisária, conseguira alguma vez aquele efeito nos homens.

Os pobres rapazes, perplexos, mas excitados com aquele ritual de acasalamento e ébrios pelo aroma no ar que lhes consumia as entranhas, aproximaram-se das vorazes predadoras e foram imediatamente consumidos por olhos, mãos, bocas e corpos que haviam estado anos e anos em câmara ardente. Num degustar colectivo, onde elas provaram e comprovaram de tudo e de todos, poderam optar e eleger finalmente, o tão ansiado noivo, desejado por tantos anos.

Marcaram-se jantares de noivado, combinaram-se datas de cerimónias de casamentos, convidaram-se padrinhos e escolheram-se locais para noites de núpcias.

O povo não aceitou o convite para testemunhar daquela feitiçaria e recusou-se mesmo a estar presente na festa após a cerimónia religiosa. Como forma de protesto, todas as janelas e porta da aldeia foram fechadas e trancadas, até porque foi um dia em que tresandava pelo ar um forte cheiro de luxúria, que ia aumentando de intensidade à medida que a noite se aproximava. Tentações do demo.

Terminada a festa, os noivos pareciam abelhas ao mel, pela forma como quase voaram em direcção às camas que os esperavam. Se foram felizes para sempre, ainda ninguém conseguiu contar. Desde aquela noite que nunca mais se soube nada deles, pensa-se mesmo que por lá continuam no desfrute. Ouvem-se gritos vindos das casas, gargalhadas felizes e longos suspiros. Há até quem diga, que viu por ali a pairar o fantasma prazenteiro da Belisária. Mais o seu cheiro, que ficou impregnado no local.

E na aldeia nascem flores perfumadas por todos os cantos, sem que ninguém as tenha sequer, alguma vez semeado.