sexta-feira, 19 de setembro de 2008

a larva e a borboleta - #3


O trajecto diário é sempre infinito. Os solavancos ritmados do autocarro, fazem cair o tipo malcheiroso para cima de si todos os dias.
Tem frio. As mangas do velho sobretudo já não descem até aos pulsos. Mas continua a puxá-las até esgaçarem. Quando romperem logo se verá. Na paragem descem sempre os mesmos, mas cada um se enfia numa esquina diferente. A dela é imunda. Cheira a bêbados, a vómitos, a podre, a fumo de fábrica logo de madrugada.
O porco do patrão já p’ra lá anda a roçar com a barriga nos armários e a esfregar os toucinhos volumosos no balcão de pedra mármore. Para a esquerda e para a direita, para a esquerda e para a direita. Sempre com o mesmo trapo gasto e desfiado, com perfume a bedum.
Então rapariga, já ai estás? Começa a cortar carcaças, que não tarda nada ‘tá aí o pessoal da fábrica. Vá lá, avia-te mulher, que não te pago para pores essa cara!
Começa a dividir ao meio, dezenas de carcaças moles e enche-as de margarina, mortadela seca e de torresmos duros. Acarta com botijas de cerveja, que a malta ali não é de mariquices e não bebe galões.
O cheiro a sovacos mal lavados e a pele masculina carregada, avisa-a que o inferno já deu ordem para atiçar o fogo aos caldeirões de ferro preto.
Chegam aos grupos e abraçam-se uns aos outros dando palmadões nos costados. São horas de alarvidades, de gargalhadas roucas com cheiro a tabaco sem filtro, de mãos com unhas sujas que aparecem bem perto do corpo dela, de corpos suados e usados à pressa, pelas desgraçadas da esquina.
Torna-se surda perante aquelas conversas de putas, futebol, salários de miséria e de lutas sindicais.
A gordura é toda a mesma. A deles e a das panelas que tem a feder ao lume para o almoço. Já não as distingue.
Anda lá, oh caraças? ‘Tás agarrada ao tacho a fazer o quê? Tu queres ver que ainda desandas daqui para fora hoje!
Depois do apito da fábrica, limpa todo o esterco deixado pelos homens. É difícil e o tampo das mesas ainda de madeira, não lhe facilita a vida. A porcaria entranha-se nas frestas, apodrece por ali e serve de alimento durante semanas, aos animais que se seguem: baratinhas minúsculas e luzidias, mosquitagem diversa, peixinhos de prata e outros seres rastejantes ainda sem nome.
Com o fim da tarde, chegam também as mulheres da vida. São cada vez mais novas. Ao contrário dos homens da fábrica, sentam-se sozinhas ou duas a duas. Sem barulho, sem festejos e cumprimentos, bebem pouco e comem menos. Falam baixo e observam quase nada.
Tratam-na pelo nome, dizem por favor e obrigada, mostram-lhe fotografias dos filhos que pouco vêem. Não choram, não se queixam, não se lamentam.
No fundo são como ela. Vivem com o que têm.

De novo o toque da fábrica dá sinal de aviso para o início do expediente delas. Saem silenciosas, devagar e já de cigarro na boca, retocada há minutos de batom encarnado vivo. Nunca deixam qualquer sujidade ou cheiro atrás de si.
Já se gastou há muito.

O tasco fecha também. E depois sai ela.
É agora, que literalmente desperta e abre os olhos.
Lava-se na casa-de-banho pública, solta e escova o cabelo, perfuma-se com a amostra de cheiro que veio no gel de banho, troca a bata imunda por uns ténis, jeans e t-shirt limpos e enfia os óculos escuros que alguém já não quis porque passaram de moda.
Traz o jantar da cozinha e come-o sempre no jardim em frente ao liceu, onde lê todos os jornais gratuitos que estavam a dar de madrugada, na paragem da camioneta.
Sentado ao seu lado no banco do jardim, está o Pedro de portátil ao colo e que dali a uma hora, vai ter as aulas da noite. Ela navega pela net com tanto à vontade como se o pc fosse seu. E é. Naquela horita o Pedro entrega-lho, enquanto faz backside, frontside e grabs no skate. Ouve os seus sucessos no youtube, vê quais os museus que não se pagam ao domingo de manhã, toma nota das exposições nas galerias de arte, dos concertos ao ar livre e das feiras de tasquinhas. E envia mails para si própria.
Eu hoje trouxe-te uma surpresa; fotocópias dos contos do Trindade Coelho e poesias da Florbela. Sorri de felicidade.
Até amanhã, Pedro.
Ainda passeia de braço dado com o velho e o cão e ouve-lhe as histórias, os sonhos e os suspiros de cansaço da idade. Recebe, beijos, festas e lambidelas de gratidão.

E segue para o pequeno centro comercial, onde o segurança que é filho de uma das mulheres da esquina, a conhece da taberna. Deixa-a entrar no cinema todas as noites e a meio do filme oferece-lhe pipocas e coca-cola, com os cumprimentos dos empregados do bar. Amanhã não podes faltar que é um dos românticos.
Claro que não!
Agradece os posters dos actores para colar na parede do quarto e a gerente da Zara consegue passar-lhe duas peças de roupa com imperceptíveis defeitos. Ainda salva a tempo do contentor do centro comercial uma caixa de sapatos, que vem mesmo a calhar para guardar os colares de conchas que encontra na praia aos sábados.
Apanha boleia dos homens do camião do lixo e chega ao canto onde vive, sempre feliz.
Deita-se a sorrir, pega na Florbela que lhe deu o Pedro e conversa com ela.
Segue acordada o resto da noite.
Afinal, é durante o dia que prefere dormir.



24 comentários:

de dentro pra fora.... disse...

E assim se vai vivendo a vida,...
cada um como pode,com o pouco(que ás vezes é o muito que a vida nos dá) que se tem.

PDuarte disse...

vou ver se hoje estou bem.
fixei a descrição dos operários.
eu sou operário, e acho que já não há operários assim. penso eu.
até por causa de varias normas de Higiene e Segurança no Trabalho que se têm que cumprir.
o texto está uma maravilha mas isso para mim já não é novidade.

BlueVelvet disse...

Texto mais sórdido e decadente.
Duas faces da mesma moeda: a larva e a borboleta.
Linda a volta final.
O Lobo Antunes não lhe teria dado essa volta.
E daí, quem sabe? Às vezes é mesmo melhor dormir de dia.
Muito bom, vizinha

Essência Pura disse...

Patti,

Encanta-me a sutileza com que dizes tudo...
Uma sexta feira de muita paz pra vc e sua familia

Miriam

f@ disse...

Parece impossível, ficção... mas ainda acontece tudo o que aqui relatas... triste a (li)cheira do ser humano...
admiro mtas vezes a forma "feliz" como algumas pessoas tem a imensa sabedoria de aceitar o que a vida lhes trás ...
a noite é um prodígio que ( a)corda o sol… custa é abrir os olhos ver, alguns dos raios...
beijinhos das nuvens

Gi disse...

Achei lindo o texto, embora os operários fabris de que falas me transportassem para uns tempos mais longínquos ;)
Bem lá vou eu sempre de olhos bem abertos ... de dia e de noite.

pedro oliveira disse...

Provavelmente já alguém te fez este pergunta/desafio ou mesmo tu já pensaste nisso: que tal levares para as páginas de um livro estes textos do teu "ar"?
nada como começar a manhã a ler os teus textos.bom fds

1/4 de Fada disse...

Comecei a ler e de repente lembrei-me de Zola, no Germinal. Sem tirar nem pôr. O mesmo ambiente pesado e escuro, a mesma claustrofobia que senti. Houve um ano em que dei aulas na Moita, apanhava o comboio muito cedo, o barco logo a seguir,quando chegava à estação Sul e Sueste o ambiente do café era semelhante, ou era eu que o via assim, porque foi um ano muito mau. A analogia surge-me lógica, porque, tal como a tua história, também acabou muito bem.

Teresa Durães disse...

um texto muito optimista na sua rota final

Justine disse...

Pungente, a tua história. Perturbante, a tua história. Fascinante, a tua históra. Porque tem vida dentro.E poesia.
Sabes que me fizeste lembrar a "Calçada de Carriche" do António Gedeão...

Cecília disse...

Eu não digo que o cérebro tem coisas fantásticas?? Acelerado com o açúcar ingerido ontem, isto é uma autêntica tempestade neuronal!! E depois acha que que eu é que converso bem com as letras.....

2 histórias tão bem articuladas, assim de rajada...será que não há duas sem três?

Aguardo por amanhã......

Pitanga Doce disse...

Patti, não te espantes com o que te vou dizer: há tempos, muito tempo mesmo vi um filme em que a personagem principal, durante a madrugada era visitada pelo espírito de uma pintora, e então ela levantava-se da cama, vestia-se de dama antiga e tinha na cabeça um lindo chapéu de palha com flores e ...pintava e pintava.

Tu me lembras esta mulher. Escreves à noite e com uma naturalidade e verdade que pareces possuída por um Érico Veríssimo ou uma Raquel de Queirós. Imagino-te digitando e os pensamentos vindo mais rápidos do que os dedos podem correr. Tudo saindo aos borbotões.

A história pode ser de qualquer mulher que nos esbarram nas ruas e têm suas vidas presas à miséria humana e aos sonhos.

Bom te ler, Patti. Bom fim de semana.

Filoxera disse...

Adorei. Até senti aversão pelo ambiente descrito. Mas o surpreendente é o volte-face.
Mais uma vez, deixa que te diga que escreves muito bem.

Também referi o facto de os museus serem gratuitos nas manhãs de Domingo, no meu mais recente post ;-)))
Beijos.

paulofski disse...

Faltam-me as palavras, nem sei bem o que escrever! Porquê? Porque sempre fica em mim um aroma nostálgico em cada texto teu.

Bom fim-de-semana.

claudia disse...

Excelente texto para terminar a semana...não fosse este , mais um de teus magnificos posts!

Bom fim de semana

Ah, e concordo totalmente com o Pedro oliveira...porque nao?

LeniB disse...

Pois é , Patti: duas faces da mesma moeda. Não interessa tanto se a personagem é operária fabril ou não. Interessa antes o ritmo febril a que está sujeita e a vontade de continuar à procura da mudança.
Belo texto este!!
Toma lá dois beijos repenicados!!!!

Ka disse...

Muito bom este teu texto!!!

E acima de tudo cheio de esperança, apesar da dureza da vida de alguns.

Um pequeno gesto e uma atitude positiva fazem toda a diferença!

Beijo grande

Cerejinha disse...

Estou sem palavras...
Na minha vida também há a história de uma larva/borboleta que infelizmente não posso desvendar. Tem apenas 4 anos mas com dias sofridos que um adulto não conseguiria aguentar...

Pitanga Doce disse...

Vim ouvir a música que é da melhor qualidade. Estou sozinha. O rapaz já foi. Tenho à minha frente uma xícara de chá quente. É para aquecer.
Mas à noite terei companhia.

Escreve que a gente lê.

beijos

Patti disse...

Pitanguinha:
Obrigada, linda. Mas ao fim-de-semana é bastante mais ligeirinho, senão nem eu aguentava. Ahahahaaha

susana catarino disse...

excelente texto! fantásticas descrições!

como seria viver e sofrer uma metamorfose assim no dia a dia?

Violeta disse...

Adorei o texto.Muito bom, parabéns!

Borboleta disse...

Mesmo sem estar sempre presente aqui, consegues neste magnífico texto descrever mais ou menos o que tenho sentido, nestas duas últimas semanas! A diferença é que só sou borboleta quando estou no curso (dois dias por semana) pois quando estou no trabalho realmente é como dizes, prefiro dormir e ser larva dentro de um casulo à espera de sair!

Texto simplesmente magnifico (ups...já tinha dito) lolol

Rita disse...

Este teu texto está lindo. Quase me vi sentada numa cadeira da taberna a observar o que descreves com tanta profundidade. Amei...
Jokas