sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

vírus* num blog sério e familiar #10

david gandy

Bom fim-de-semana!
(Parai todas, parai! Se ando eu em privação calórica, também andais vós, pois então)!

* um belo naco de...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

aqui pelo meu bairro # 6


Ai senhores, senhores senhores! Estou para aqui numa tão grande excitação, que nem me aguento! O que é que vocês diriam, se eu vos contasse que fui apanhada completamente desprevenida, ali entre a capelista e o estofador, por uma exaltada declaração de amor? Assim, num sábado de madrugada, especada no meio do passeio, aparvalhada de todo e com o saco das carcaças nas mãos? Ficavam radiantes por mim, não era?
Não, não foi o Onofre, o padeiro. Esse é mais olhares, piropos e insinuações, mas chegar-se à frente que é bom, nada. Foi o Xavier do talho. Um viúvo muito jeitoso, que se mudou para o bairro vai para três anos, mais coisa menos coisa.
Eu já tinha notado que ele me favorecia no peso das entremeadas, no aviamento das iscas e na qualidade dos miúdos para a canja. Até pensei com os meus botões, o homem é novo cá no bairro e quer conquistar a clientela. Nada disso, nessa manhã de sábado, na alvorada do meu ressurgir para a paixão, na redescoberta dos prazeres proscritos a uma viúva respeitosa,
confessou-me ele um incólume arrebatamento, no mesmo instante em que me pôs a vista em cima.
E para verem que o namoro é coisa séria e tem futuro, escutem lá isto:
Noutro dia fomos namorar junto ao rio. Os dois juntinhos dentro do carro à beira Tejo, vendo os barcos partirem para o Seixal. Mas nada de poucas-vergonhas, amassos e demonstrações vivaças, nada disso! Ele a ouvir o relato e eu, precavida, concentrada no meu croché a ver se substituía os naperons da televisão lá de casa, que já estão como há-de ir.
Nisto, sabendo para onde eram os naperons, pergunta-me
o meu Xavier assim um pouco altercado: para a televisão Amelinha? Quero lá isso de televisões na nossa casa, minha jóia! Na nossa casa, só LSD e mais nada. Fiquei boquiaberta, mas assenti claro está, que uma mulher não se quer respondona como umas e outras e para mais, também não falo estrangeiro e até achei o nome pomposo: LSD.
A Zeneide manicure tratou logo de me explicar, que os LSD eram umas televisões muito modernas e fininhas, que se fixam
nas paredes das casas ricas, com uma cola muito especial que nunca despega e que vem não sei donde.
Ainda nem estou em mim da emoção e diga-se de passagem, um bocadinho para o psicadélico; eu, Amelinha, com um LSD colado na parede da minha humilde sala, vejam lá bem!

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

domingo, 24 de janeiro de 2010

privações II

imagem sweet paul

Eu ando a tentar, juro que ando. Mais do que tentar, eu ando a cumprir com a privação dos hidratos e das substâncias adiposas. Mas santa paciência, já estou enjoada de tanto grelhadinho, cozidinho, saladinha e refeições a vapor, mais água, água, muita água. Coisa horrível. Desenxabida. Sem gracinha nenhuma.
Bem, mas como este tipo de alimentação serve um nobilíssimo objectivo, eu aguento-me. Oh se me aguento, senhores.
Ora mas o que eu queria mesmo, era que os meus queridos vizinhos blogobairrenses me facultassem receitas de refeições pouco calóricas, daquelas simples, fazíveis e sobretudo, atenção, sobretudo muito saborosas. E sobremesas também.
Essa é que é essa!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

crónicas de graça # 8

Pontualidade

Isto de se ser pontual, não será uma tarefa fácil de se cumprir. Porque pontualidade no verdadeiro sentido pouco se pratica. Na maior parte dos casos, ou se chega antes, ou depois.

Eu sou das que chegam antes da hora marcada. Não sei fazer doutra maneira. Nem quero. Mesmo que os outros façam o contrário. Até cinco minutos de atraso, não se passa nada, mas a partir daí começo a embaciar o vidro relógio com o fumo das narinas.
As justificações são sempre as mesmas: o trânsito, uma reunião que se estendeu, um telefonema de última hora, o médico que se atrasou, a fila do supermercado, a máquina da roupa que deu o berro. Como se a outra parte também não tivesse imprevistos.
Pode-se rapidamente fazer o perfil dos atrasado-compulsivos. São quase sempre pessoas descontraídas, flexíveis com o factor tempo, parecem a todo o tempo bem dispostas e têm por lema, a vida são dois dias e stress. Não esquecer, que chegam sempre com um enorme e irresistível sorriso de anjo na cara, acessório imprescindível à desculpa do atraso. E se ainda repararem bem, têm um letreiro na testa dizendo, eu tenho cá uma lata!
Adoptei há muitos anos, a estratégia de me encontrar com eles - esses amigos perfeitamente identificados - em esplanadas a apanhar sol, já sentadinha no restaurante a petiscar, ou em casa. Nunca na rua especada, feito estátua nervosa presa ao pedestal.
Os atrasados não sofrem muito com a questão e a coisa funciona até bem, mas só para o seu modo de ser.
Há o outro lado deles, que me aterroriza. Têm regularmente mil tarefas em mãos, as quais não conseguem cumprir, deixam muita coisa para trás e para depois, falham constantemente compromissos que vão desde uma importantíssima reunião de negócios, à festa da escola dos filhos. São incapazes de fazer escolhas entre um assunto que requeira prioridade, e outro supérfluo. Dizem que sim a tudo, nunca há impedimentos para nada, alguma coisa se há-de desenrascar. Aquela velha história, de que o ovo estará eternamente na galinha...
Ora, este é o oposto do comportamento dos adiantados. Organizados, metódicos, previdentes. Também temos o lado negro claro, não somos perfeitos: ansiosos, impacientes, apressados, exigentes.

Um dia, assisti a uma peça no Teatro Tivoli, "Sete Minutos", um monólogo com o brilhante António Fagundes. O actor avisou em entrevistas televisivas e reportagens, de que as portas encerravam impreterivelmente às 20.45h. Nem mais uma alminha lusa entrava naquela sala, nem sequer valiam a pena, as desculpas de maremotos, morte da mãe ou uma unha encravada. Nada, nada, nada.
O público português ria é claro, achavam graça, comentavam o impraticável atrevimento, não acreditavam na sua concretização. Dito e feito. Ficaram cinco ou seis pessoas na rua e o caso foi tão insólito neste país de atrasados, que até deu em notícia de jornal.

Infelizmente, a exequível ideia ficou-se por ali. Devia haver normas mais severas de cumprimento de horários, especialmente nos locais públicos, onde os demais são prejudicados pela classe dos atrasados crónicos. Cinema, teatro, concertos, conferências e afins.
Lá vêm eles, à média luz, sempre com aquele
enervante arzinho pateta, quase dócil, praticamente de gatas, a passarem entre as cadeiras aos tropeções e de nariz no chão, cheios de com licenças e desculpe, desculpe, desculpe, que só me apetece empurrá-los por ali abaixo (a privação de açucares deixa-me assim, colérica).
Pronto, já desabafei!



E o Carlos? Por favor não me dê um desgosto, dizendo que é um desses! Bom, desconfio que não.

Crónicas de Graça #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

ares da minha graça II


E vão dois anos de Ares da Minha Graça. Num instante.
O tempo a fazer das dele, usando um relógio muito mais rápido do que o meu; ou com mais ponteiros...

Mais um ano de muito escrevinhar. Ensaios centrados num registo mais próximo de mim. E assim nasceram as personagens reais que se cruzam comigo na rua, no supermercado, na praia, na esplanada, no consultório, com vidas fantasiadas que lhes crio no papel; a utopia de biografias que me surgem ao observar uma imagem; um confessionário sem genuflexório ou contrições, mas vital e professor depois dos quarenta; três parcerias-Amigas que me preenchem folhas e folhas a letra miúda, me dão um sincero prazer e que espero corresponder de todas as vezes, sobretudo aos meus três cúmplices; um alter-ego surpreendente, onde carrego baterias, onde me farto de rir com o incauto, me comovo com a genuinidade de pessoas assim, dando-me de texto em texto a absoluta convicção, de que um dia vou encontrá-la, a ela, a minha Amelinha, numa rua da Graça, Patti, sou eu filha! A tua Amelinha, já não me conheces rapariga?
Mais um ano de muitas e distintas leituras, visitas fiéis, amigos, companheiros, presenças, comentários cá e lá, encontros além-fronteiras e sem muros, novos e velhos vizinhos de um blogobairro que um dia imaginei.
Mais uma ano sob a descoberta lenta e comedida, de que a escrita não pode ser só o alinhamento de palavras que se ajeitam entre elas, de uma forma que ninguém se tinha ainda lembrado de as colocar. Será mais. Será talvez, tudo o resto que falta. De que ainda pouco sei. Muito além do que trazemos no pensamento. É físico, corpóreo, terreno e no final, paradoxalmente diáfano. Com cheiro, textura, colírio para os olhos. E que se escuta.
Aquela ideia constante de que o que se escreve, só está verdadeiramente escrito e concluído, depois de ser lido pelos outros.
A mim basta-me um lápis.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

privações I

(restaurante a maria, alandroal, foto minha)

E já lá vai uma semana de celibato no mantimento.
Uma insípida, uma infeliz desnutrida à beira do colapso gastronómico, é o que eu sou.
Que saudades eu tenho disto.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

ai o amor, o amor ...

(clicar nas imagens para aumentar)

A deliciosa carta de amor, de uma menina com 8 anos (enviado por mail).

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

sopas de letras portuguesas # 2


Texto inspirado em: "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas"
Título do livro de Ricardo Adolfo

O assunto da morte sempre me foi odioso. Evitei-o de todas as vezes, fiz de conta que era um não-tema, neguei-me a pensar nele, fingi não saber do que se tratava - e na verdade não sabia.
Mas sei agora. Que morri. Morto e matado de todo.
O tema é mórbido, bem sei, mas é que se passam tantas, mas tantas cenas depois de um homem estar morto, que nem sei por onde começar. O positivo da questão, é que agora tenho a morte toda pela frente.
Primeiro, quero já aqui esclarecer e acabar com boatos e injúrias, sobre as larvas serem nojentas. Nada mais falso, caros vivos da silva. São os bicharocos mais simpáticos que existem à face da terra, ou melhor nas suas profundezas. Vermes companheiros e sempre muito presentes, quer na limpeza das minhas unhas dos pés, no vazamento do pó dos meus ouvidos, enroscadas em sonecas profundas na dobra dos meus joelhos, ou a petiscarem os restos gástricos do meu estômago.
Portanto, temos criaturinhas que comparecem com frequência, na solidão desta minha vida, perdão, morte.
Aqui nas catacumbas deste cemitério de província, onde agora habito, a animação é grande. Não fora alguns ossos já se terem desfeito e posteriormente levados pelas larvas, impedindo-me grandes movimentos ao esqueleto, diria mesmo que por aqui, no reino dos mortos, abunda o reboliço, a agitação e o alvoroço.
Forneço-vos para vos elucidar, uma breve listagem dos nossos afazeres diários:
- Observação e contagem das noites estreladas. Vocês sabem lá os milhares de estrelas que existem no firmamento. Eu estou em quarto lugar nesta prova. É o concurso mais popular do cemitério. É claro, que posição de barriga para cima como nos colocam, também ajuda muito.
- Semanas temáticas: a escassez de visitas ao cemitério; as doenças mortais; a morte-santa; o halloween; a fauna necrófoba; como evitar a pá dos coveiros; os benefícios de uma saudável putrefacção; as vantagens e desvantagens da iluminação das morgues; o peso e o cheiro das coroas de flores; a qualidade duvidosa da madeira utilizada nos esquifes; o péssimo aquecimento na ala das autópsias; cinema de terror.
Mas gostar mesmo, mesmo, é da semana de beleza e dos cuidados com o envelhecimento da imagem: como manter esbelto o seu cadáver.
Aprendi conselhos utilíssimos e cá vão eles: esfoliação das peles mortas, com o ancinho do jardineiro, dez vezes ao dia; evitar a absorvência das flores apodrecidas do funeral, combatendo assim um crónico e fedorento perfume em todo o corpo, ou melhor, do que resta dele; reciclar a argila contida na terra que nos sobrecarga, para a tonificação da ossatura existente; aproveitar e extrair das longas raízes das hortas vizinhas, que por nós se emaranham, as suas propriedades anti-oxidantes, tão benéficas ao combate dos danos provocados pelos radicais livres.

E agora, aproveitando a oportunidade desta minha crónica no mundo dos vivos, pedia-vos encarecidamente que se nesta moda dos referendos, não podiam fazer mais um sobre a prática recorrente das etiquetas no dedo gordo do pé, tão em voga nas morgues dos hospitais.

Eu e a minha letal vizinhança, votamos contra! Aquilo dá um raio de uma comichão.

E tu minha Gi, como te safaste com mais estas letras portuguesas?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

meu o início, vosso o final #2


E pronto. Foi esta semana. Entrei em provação alimentar.
Asneiras saborosas, excessos nutritivos e pecados calóricos serão esquecidos durante alguns meses. Deixarão assim de ter lugar no meu prato.
Mas sabem tão bem...o que me custa, sabem lá vocês.
Bom, reza a lenda das dietas, que sempre que alguém decide retomar o saudável caminho da contenção nutritiva, muitos hidratos de carbono sofrem verdadeiros percalços nas suas excessivas vidas.
Soube em tempos de um suculento bife do lombo com ovo a cavalo, ser rejeitado numa mesa durante um almoço de amigos, por se apresentar demasiado gordo. Ora acontece, que nessa mesma tarde o suculento naco,
finalmente decidira pedir em casamento a mão da bela sericaia com calda de ameixas. Assim, a sua não admissão à mesa dos convivas revelou-se num real desastre amoroso.
O bife não mais admirou a sua sericaia. Os seus olhares não se trocaram. Os seus pratos nem se roçaram. E os seus aromas sequer se misturaram. Uma tragédia quase fatal, aquela refeição.
Não fora o inestimável préstimo da sua companheira e amiga de tantos anos, a batata frita caseira às rodelas, mais o tinto da casa e a airosa broa de milho, que logo se dispuseram a encontrar solução para o funesto desencontro, jamais os dois amantes se voltariam a refeiçar.
Vai daí, resolveram...

...e agora, caros leitores do meu blogobairro, continuam vocês a história. Aqui ou no vosso blog.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

crónicas de graça # 7

Revistas cor-de-rosa

Olhe, esse já deixou a outra e agora anda metido com essa pirosa. Tem idade para ser mãe dele. E ainda dizem que o sujeito não ficou por aí! Anda a catrapiscar a outra fulana, aquela loura, da SIC sabe qual é?

Eu nunca sei nada. Sou uma leiga. Só leio as capas na entrada dos supermercados. E a revista da ordem no cabeleireiro, uma vez por semana para fazer um download de actualizações. Ah e uma vez ou outra, compro para praia ler na praia.
Mas a minha cabeleireira continua: aquela, a loura do programa de sábado a seguir ao almoço. A que se divorciou do outro estupor, que agora anda aos caídos. Essa agora está grávida de outro. Então ainda não leu?
Aceno com a cabeça. Faz de conta que sei.
E lá vem ela: é como o casal BradJolie; aquilo para mim está nas últimas e não é de agora. O desgraçado do rapaz nem deve conseguir dormir, com tanto filho aos gritos pela noite adentro. Olhe, se quer que lhe diga, também é muito bem feito! Ninguém o mandou trair a Jennifer. Tão linda que ela é. Aqueles cabelos perfeitos. Lindos, lindos, sempre arranjadinhos, brilhantes. Aquilo não é dela, só pode ser coisa de um bom cabeleireiro, ah porque disso entendo eu, muito bem, não acha?
Bom, isto não é todas as semanas assim, mas se ela me vê pegar na revista cor-de-rosa lá do salão, estou feita.
Na verdade, existem poucas coisas tão tontas com as revistas cor-de-rosa. Tontas porque alimentam cabecinhas ainda mais tontas, crentes de que a realidade é mesmo assim: tonta de todo. E talvez seja, para os tontos que não fazem mais nada, senão correr para a frente dos fotógrafos.
Revistas tontas pelo desfile de disparates que por lá se lêem: o não sei quantos é o grande amor da minha vida (namoram há duas semanas); sei que quero ficar com ele até ao fim dos meus dias (conheceu-o ontem); sempre quis ser actriz (e diz prontos); nunca fiz dietas, já nasci assim (e já fez para cima de não sei quantas plásticas); não resisto a uma carteira Hermés (e compra imitações na feira).
A tonteira maior não vem das verdadeiras figuras públicas, os actores, músicos, pintores, estilistas, designers, mas dos outros, dos profissionais da coisa cor-de-rosa.
Recentemente fui convidada para um grande lançamento. Coisa que merecia a pena sair de casa, numa noite chuvosa de inverno. E valeu sim senhora.
Mas o desfile de figurinhas e figurões que por lá se passearam, foi de bradar aos céus. Se eu estivesse pelos azeites, tinha escrito um livro de personagens logo ali.
As máquinas fotográficas têm um telescópio agarrado, em vez de uma lente. De verdade. Enfiam-no na cara daquelas criaturas ávidas de social e disparam, disparam, disparam até à morte.
Andam atrás de umas, para ficarem na fotografia ao lado das outras. Sempre as mesmas, os mesmos nomes, as mesmas caras, os mesmos sorrisos. E elas lá vão. Uma, e outra e mais outra vez. Clique, clique, clique, é o som mais escutado. Esse e o dos copos a encherem. Mas desse barulho também eu gosto...
E depois vêm as televisões e os seus programas, de fim-de-semana a seguir do almoço. Daqueles que a minha cabeleireira falou. Ele é meninas apresentadoras, sorridentes e simpáticas, colocando questões tolas; ele é câmaras com focos de luz, capazes de iluminar estádios de futebol; ele é encontrões e pisadelas para se aparecer ao lado do entrevistado, assim como quem não quer a coisa; ele é uma verdadeira antologia de como se sobrevive em ambientes cor-de-rosa. Há cenas de susto. Acreditem-me.
Claro que na semana seguinte, lá estava eu no cabeleireiro a cuscar a revista do salão. Quatro páginas. Mas quatro páginas de quê? Desta, daquela, da outra e daqueloutra. Mas do lançamento propriamente dito, do tema da festa, do acontecimento que nos levou ali...nada. Só o título da reportagem.
Mal se fala do conteúdo, só da forma e isso é o que torna este tipo de reportagens sem qualquer valor jornalístico.
Mas o pior das revistas cor-de-rosa não são as vertigens sociais que se acometem em alguns, mas sim a parte perversa da questão. A exposição desmedida. A invenção de factos. A ausência de privacidade. A perseguição. A invasão. A quase impossibilidade de livre movimento. O lavar de roupa suja. O sururu. A falsa adulação. A maledicência. A galopante subida aos píncaros. O não apareces, logo não existes. A morte súbita.


Ah, também lá esteve? E não aparece nunca em nenhuma destas fotografias? Que pena, assim nem valeu a pena ter ido, não é?
Disse-me a minha cabeleireira muito chocada.


E o Carlos, não me diga que já foi capa de alguma revista cor-de-rosa?


Crónicas de Graça #1, #2, #3, #4, #5, #6.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

acordada


Sonhos, sonhos, sonhos, daqueles assim mais concretizáveis, contudo semi-secretos e muito íntimos e pessoais, mesmo meus-meus, com o seu quê de egoísmo, tenho dois para este 2010.
Um deles, espero concretizá-lo antes do meio do ano e tenho quase a certeza que me irá fazer um bem enorme à alma; se é que ela existe mesmo.
E o outro - sonho recente ainda, coisa com um ano de criação - ando a dormi-lo todas as noites, mas espero despertá-lo aos poucos, num vagaroso trabalho de concentração e esforço durante todo este ano.

Decidi não dormir mais com eles. Vou acordá-los.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

parasimpattias #3

Exercício: descrever de forma intensa, a primeira experiência que a memória registou da cor vermelha.

Houve um tempo em que ainda existiam baloiços de madeira, pendurados em ruidosas correntes enferrujadas e see saws aparelhados em cabeças de cavalo, onde apertávamos as mãos pequenas até ficarem vermelhas. Com calos vermilhões, de verdadeiro vermelho dor.

Um tempo em que o chão dos parques infantis, era de pedra dura e incerta, com desenhos avermelhado escuro. Sangue alegre das brincadeiras.
Havia espaço para se avermelharem joelhos e cotovelos, partir cabeças rosadas, narizes e queixos rubros. Uma época em que exibíamos aos amigos orgulhosas cicatrizes, pontos costurados a sangue frio e hematomas coloridos de vermelhaço-vermelhante.
Era a nossa primeira experiência em vermelhoso vivo. O vermelho líquido e quente, espesso e de sabor acre, que jorrávamos a rodos de dentro de nós.
Também foi assim comigo, quando caí do velho see saw de madeira lascada e já sem cor. Pintei-o a jacto de tinta, directamente do meu queixo, com um vermelho vivo e intenso. Lindo. É até hoje, o meu vermelho preferido.
Aquele encarnado.

E a SInhora, de que cor se lembra primeiro?

domingo, 3 de janeiro de 2010

ai, ai...

alentejo

... e pronto, lá se foram os meus fantásticos dias de férias no campo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

feliz natal e um grande 2010...

... para todo o meu blogobairro querido!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

crónicas de graça # 6

O Natal

Ando tão atarefada e azafamada, que nem tempo tenho conseguido arranjar para a minha visita ao Ares e contar-vos das novidades aqui do bairro. E essa lufa-lufa toda é porquê menina Amelinha, perguntam-me vocês?
Por causa do Natal!
Dos aprontamentos. Das compras no supermercado. Das decorações. Da ajuda ao senhor padre Hipólito. Do apoio às famílias necessitadas do bairro. Das rifas da paróquia. Da compra do pinheiro. Da escolha do bacalhau, das couves e do grão. Do musgo para o Menino. Dos postais de boas festas. Dos preparativos para receber a família do Norte e a da Beira e a do Sul e ainda os compadres das ilhas. Dos fritos para o Onofre padeiro. Dos fritos para fora. Das mantinhas para os cães e os gatos do canil. Da sopa dos pobres.
Pois é, eu sou das tais que vivem esta época intensamente; com uma grande alegria. Apesar da falta que o meu Alfredo me faz, já o sabem. Excepto com aqueles que por razão de força maior, como a experiência de uma fatalidade, não vivem bem esta quadra, não tenho a mínima pachorra para os abutres do Natal. Credo! Fechem-se em casa.
Ora embirram com as compras, ora com os doces, ora com a música, ora com as luzes, ora com o trânsito, ora com o pai natal, ora com os frutos secos, ora com o bolo rainha. Livra!
Oh minha gente, embirrem lá mais para o início de Janeiro, que até é um mês estúpido e tudo, e deixem o Natal sossegado. Oh valha-me Deus.
Que há muita desgraça no mundo, muitas crianças com fome, muitas famílias sem tecto, muitas pessoas sozinhas, muitas guerras sem fim. Pois há. Aqui no bairro também, mas não aparecem só no Natal, estão por cá todo o ano. E quanto a mudar o mundo, nada posso fazer. Posso e devo consertar o que me rodeia, na esperança que se repercuta nos outros e assim por diante. Tipo efeito dominó. Se todos plantarmos uma flor no quintal, o vizinho imita-nos e todos os quintais ficarão mais bonitos. Agora, aquela maniazinha de virem só nesta época, chamar a atenção para os problemas do planeta, encanita-me. Mas os problemas não duram todo o ano? Pois se não estão satisfeitos, tentem mudar as coisas, ou não é?

Bom, adiante.
A minha azáfama começa logo em finais de Outubro. A família espalhada pelos quatro cantos do país, aterra toda aqui no bairro a partir do dia 22, e há que acomodar esta catrefada de gente na minha casa. Fazer camas, baixar divãs, pedir colchões emprestados, escolher toalhas, cobertores e lençóis. Enfim, um cansaço mas que muito me agrada, não fosse esta a festa da família.
São os meus pais de Mirandela, mais os meus irmãos e as mulheres e a filharada toda, que vêm de lá com o cabrito, o pão, as nabiças e o melhor azeite do mundo; os primos de Gouveia que me trazem as perdizes à moda lá da terra, mais as trutas abafadas; a minha cunhada de Porto Santo, com o bolo de mel, o licor de amoras e os fartos de batata-doce; os meus tios de Serpa, carregando cabazes de papos-de-anjo, a encharcada, a garoupa para a canja, o tinto alentejano e as azeitonas; e finalmente os meus compadres marafados, com o rico polvo, duas caixas de lingueirão e o folar doce do Natal. Aqui a Amelinha, contribui com o bacalhau da rua do Arsenal. Não falho um ano.
Depois, há que dar uma mãozinha ao padre Hipólito, no auxílio às famílias mais pobres do bairro, que em regra têm também muitas crianças. Este ano, calhou-me a partilha da minha ceia de Natal com a família Pereira. Têm cinco filhos, o pai está desempregado e a mãe faz limpezas aqui pelo bairro. Muito humildes, mas gente muito honrada. Portanto, mais pessoal para sentar à mesa. A Zeneide manicure, aquela rapariga moderna que me elucidou acerca dos sonhos góticos, é que me deu a ideia de eu fazer um jantar rolante ou volante, ou andante, ou lá como aquilo se chama. Girante, é isso: um jantar girante. Chic, não acham?
Também adoro aquela parte dos presentes. Não posso gastar muito, já se vê, mas de um giro pelas lojas da baixa, é que eu não abro mão. Era só o que me faltava, falhar com as compras de Natal.
E para quem não anda muito abonado como eu, aconselho ali o território que vai dos Fanqueiros ao Martim Moniz. E não se ponham com caganças de lojas finas, porque a zona de que vos falo é muito catita. Ele é pijamas de seda indiana, dez pares de peúgas a 5€, guarda-chuvas coloridos, caixas de jóias chinesas pintadas à mão, com desenhos de pagodes dourados, despertadores com a música do Pingo-Doce, televisões, rádios, leitores de dvd e consolas, de uma marca muito boa, mas que agora não me lembro o nome porque está em chinês,
carteiras de marca, porta-chaves de pele genuína, pauzinhos de incenso e fatos de treino de nylon, muito jeitosos.

E finalmente, os fritos. Os famosos fritos de Natal, pelos quais sou afamada aqui e nos arredores. Todos os anos despacho para fora, quilos e quilos de encomendas que me começam a chegar logo em Novembro.
São os sonhos de abóbora, de cenoura, de maçã, de gila e este ano inovei com os de banana: um sucesso! Sou também a melhor nas fatias douradas, pois faço-as com o pão que o meu rico pai me envia lá de Trás-os-Montes. Ficam assim ensopadinhas, ensopadinhas. E os coscorões? Querem lá ver coscorões mais amarelos e estaladiços que os meus? Isso é que era bom. Até o Onofre, o padeiro esquisitinho, mos encomendou este ano porque os dele tinham a textura de trapo. Só vos digo que não há azevias de grão como aqui as da Amelinha. Grão-de-bico! Do bom e verdadeiro, que na comida eu não sou cá mulher de fazer poupanças.

E é tudo amassadinho com as mãos. E não se me estala o verniz, não senhora. Horas e horas de vira e revira, amassa, esmurra, bate, volta e torna a voltar. Quero cá essas modernices de Bimbes e máquinas de pão e mainãoseioquê!
E também não me venham cá com conversas de comer com moderação, um bocadinho ali e um bocadinho aqui, e mais o cuidado com a linha, e mais a boca cosida, e mais a figura e o raio das dietas. Querem lá ver coisa mais disparatada que esta, de fazer restrições na alimentação durante o Natal? É com cada moda que inventam hoje em dia.
Bem, deixa-me lá ir. Ainda tenho duas mantinhas para acabar de tricotar e levar ao gatil, três dúzias de filhoses de abóbora, encomendadas pela Lurdinhas da mercearia, não posso faltar à missa das nove, levar dois aquecedores a óleo ao lar da paróquia, ajudar a vizinha do segundo direito a colocar a estrela no topo do pinheiro e ainda, dar um saltinho à loja do chinês para comprar mais papel de embrulho. Tanta coisa ainda para aprontar.
Mas que o meu jantar
girante, vai fazer furor no Natal cá do bairro, ai isso vai.

E o senhor Carlos, o que me diz desta época?
Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

Crónicas de Graça #1, #2, #3, #4, #5.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

pois...o Natal


Se vocês soubessem, o que eu já comi de doces de Natal...
Uma pecadora. É o que eu sou.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

no confessionário aos 40 #5


Este sábado fomos maridar para a esplanada preferida.
Também por lá paravam o sol obra-prima, aquele sol branco-inverno, picante e fundo, acalentador da nossa pele, nutriente; as ondas-mulher que barafustavam altas e espumosas, desde o fundo do horizonte prata até à praia, onde decidiram estalar o seu sal na areia amarelo-palha; aves marinhas de bico cor-de-laranja e corpo preto, riscado de branco meigo; duas dezenas de apaixonados da água gélida, pontinhos negros, formigas laboriosas, barbatanas de tubarão, que saltavam para o corpo das pranchas, dançando sobre elas sem parar, enquanto houvesse pista para andar.

O mar nunca é tão mar, como quando se funde com o sol do frio-norte.

amado, foto minha

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

vírus* num blog sério e familiar #9

foto simon baker

Bom fim-de-semana!
(Reflictam meninas. Estamos na época apropriada.
Mas com conta, peso e medida. Nada de depenarem as asinhas do anjinho, por favor).

* la, la, la, la, la, la, driving home for christmas, la, la, la, la, la, la...
(Post agendado, sigo sem net).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

sopas de letras portuguesas # 1


Texto inspirado em: "Não venhas tarde!"

Dizes me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde
Do que me pedes, baixinho
"Não venhas tarde!",
E eu peço a Deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.

Tu sabes bem
Que eu vou p'ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
"Meu amor, não venhas tarde!"

E blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Quando era miúda, este fado do Carlos Ramos ouvia-se muito na rádio - ou melhor, na telefonia.
Sempre gostei de fado, é a música da minha terra, mas a este detestava-o - e sigo a detestar.
Primeiro e antes de compreender alguma parte da letra, era a voz do homem que me incomodava: arrastada, falsa melosa, quase suplicante.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Depois, na idade da compreensão passei a antipatizar com o protagonista da história: mas ele tem uma amante? e é casado? e vai ter com outra na cara da legítima? e ainda diz que ela sofre de ciúmes?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
E finalmente, a raiva a esta letra personificou-se na traída: mas a parva ainda lhe diz para ele não vir tarde? e com carinho? sem fazer alarde? sem azedume? e ainda se vai despedir à janela? oh mãe, mas como é que a mulher atura um marido daqueles?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Mas, coitada da desgraçada. Só alguns anos mais tarde entendi que era uma situação comum à época. De educação. De formação. De lei, até. Mulheres em casa com os filhos. Cumpridoras e pacatas. Eles na rua e onde bem lhes apetecesse. Cumpridores também. Mas já não tão pacatos.
Depois, a minha mãe, que felizmente sempre foi muito acima do seu tempo, contou-me que só em 1966, é que a mulher casada teve autorização do marido, para exercer uma profissão liberal ou na função pública. A palavra autorização, é fantástica, não é? Mas alto lá, ele ainda tinha o privilégio de poder denunciar o contrato de trabalho da mulher.
Nesse mesmo ano, a mulher casada alcançou também o direito de ser detentora de património próprio e de poder movimentar contas bancárias. Uma sortuda, já podia ter mealheiro e tudo!
Só em 1969 é permitido à mulher, viajar sem autorização do marido. Influências da ida à lua, só pode!
Até 1975, era multado aquele marido que assassinasse a sua mulher por razões de adultério. Ela ia presa. E upa, upa!
Em 1976, o marido perde o direito de violar a correspondência da mulher. As despesas da capelista, da mercearia e a conta mensal do talho...
Só em 1978, o marido perde o título de "chefe de família".
E eu de boca aberta com o nonsense da coisa.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.

Assim, não é de estranhar que este detestável fado, tenha sido à época, cantado e recantado vezes sem fim.

Oh Gi, mulher laboriosa com as letras, tu reescreve-me aí estes execráveis versos e desencanita-me o fado, menina!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

aqui vou eu # 2

P'ra lá...


e p'ra cá


E no dia 10, vou estar aqui e ali.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

crónicas de graça # 5

O Alfacinha

Parece que o único registo existente para a origem da palavra alfacinha, que designa há muito os lisboetas, tem explicação nas colinas da Lisboa primitiva onde abundavam "plantas hortenses utilizadas na culinária, na perfumaria e na medicina": as alfaces.
Alface vem do árabe e foram os nossos avós mouros, os responsáveis pelo cultivo da planta quando da sua ocupação da Península Ibérica - Al-Hassa.
Há quem fale também de um cerco que a cidade sofreu e que mais não havia para comer, do que alfaces.
Dizia também, Oliveira Marques, que a Lisboa burguesa de finais do século XIX, tinha o costume de nas domingueiras tardes de calor citadino, se reunir em grandes almoçaradas pelas muitas hortas dos arredores de Lisboa. O típico peixe frito era acompanhado, ao que parece, com astronómicas quantidades de salada de alface. Quem vinha de fora, achava tudo aquilo tão pitoresco, que passou de uma moda estranhada a caricaturada.
Eu sou alfacinha de gema. Ali do meu Chiado, logo na sua primeira esquina, a da rua Serpa Pinto.
Os alfacinhas, como tudo na cidade, vêm sofrendo transformações. Não pretendo nenhum relatório, vou falar apenas dos que me lembro; dos do meu tempo, seja ele qual for.
Recordo-me de muitos géneros de alfacinhas. Não havia somente o alfacinha típico, que a maioria fala e conhece a fama.
Aquele bairrista que esfregava o olho mais rápido que o diabo, encostado estrategicamente nas esquinas da avenida, donde atirava piropos às criadas fardadas que passeavam os meninos das casas ricas. Os empolgados aficionados, organizadores dos bailes dos santos populares, com manjericos, flores de papel com quadras populares, alcachofras queimadas à janela, molhos de alfazema e rouxinóis de barro que apitavam na boca das crianças por esta altura, em toda a cidade. Os alfacinhas que discutiam com a varina, o preço do goraz, da posta de pescada e da petinga para o gato. Os que enfeitavam as varandas com vasos cheirosos de sardinheiras encarnadas, que estendiam os tapetes a arejar nos varandins de ferro, que penduravam a gaiola do canário no exterior, que traziam o grelhador para a rua e assavam a sardinha, o bacalhau e o frango assado. O alfacinha malandro e estroina, biscateiro e calão que trazia sempre uma história nova, para enganar o primeiro que encontrasse ao caminho. O fadista marialva e boémio. O alfacinha que se não fosse benfiquista, não era bom chefe de família.

bairro estrella d'ouro - graça, foto minha

Recordo também muitos outros alfacinhas.
Na entrada do ano, estes alfacinhas compravam o Borda de Água a fim de consultar as festas, os dias dos santos e os feriados sem domingo. Passeavam no Campo Grande, onde se alugavam barcos e bicicletas. Desciam a Avenida em família. Paravam nos Restaurados à conversa. As salas de espectáculos esgotavam e usava-se a palavra matiné para o cinema, o teatro e tardes de dança.
Alfacinhas que lanchavam na concorrida Baixa e faziam refeições tardias, nos muitos restaurantes e cervejarias abertas até desoras. Sem problemas.
Cruzavam-se alfacinhas anónimos, com alfacinhas poetas alfacinhas músicos, alfacinhas actores, alfacinhas atletas, alfacinhas escritores. E acenava-se com a cabeça, num cumprimento educado.
Alfacinhas que enchiam espaços tão distintos como os cafés e esplanadas, livrarias, retrosarias, casas de discos, padarias, jardins, drogarias, hortos, mercearias, jardim zoológico, miradouros, o castelo. Esgotavam-se as ruas.
As alfacinhas e as filhas iam à modista, à capelista e subiam aos grandes armazéns do Chiado e eles, engraxavam os sapatos sussurrando politiquices baixinho.
As empregadas das lojas tinham nome próprio, as vizinhas raminhos de salsa e as caras dos motoristas de táxi, não nos eram estranhas de todo.
Lisboeta. Lisboano. Lisboês. Lisbonense. Lisbonês. Olisiponense. Lisiponense. Lisbonino. Alfacinha.

Alfacinha consagrado por Garrett nas suas Viagens, capítulo VII: "Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a Rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare".


almeida garrett-avenida da liberdade, foto minha


E o tripeiro, meu parceiro, é mesmo verdade que o nome oficial nasce de uma revista editada em 1908, ou tem a ver com a gastronomia, ou ainda com aquela história das invasões napoleónicas?

Crónicas de Graça #1, #2, #3, #4

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

parasimpattias #2


Exercício: Um objecto acompanha desde o início do casamento, a vida conjugal de um casal.
Esta é a sua visão da história.

Sou um garboso dálmata de louça luzidia. Imponente e majestático. De porte altivo, ocupando um lugar de destaque na residência dos meus donos, embora os tempos áureos do meu passado, nada tenham a ver com a situação que vivo presentemente.
Acabadinho de sair do forno, fui comprado ainda cachorro por um casalinho de apaixonados, recém-casados. Ai amorzinho que peça mais linda! Ai que ficava tão bem na nossa entrada! Ai que brilha como os teus olhos! Ai que me fazia tão feliz se o levássemos! Ai mais não sei o quê! Ai mais não sei que mais.
Eram assim, a Mariline e o Ismael. Amorzinhos, beijinhos, festinhas, meiguices, pieguices, lambuzices e outras parvoíces. Fiquei um pouco enjoado, confesso. Até para mim, um cachorrinho que adora lambidelas, aquela peganhice toda me parecia um exagero. Mas lá fui. Confiante que de tanto carinho, algum haveria de sobrar para mim. E não me enganei.
Fui colocado no hall, defronte para a porta da entrada, logo ao lado de um belo móvel sapateira, de carvalho polido e ferragens douradas, que faziam clara concorrência ao meu brilho natural.
A minha enigmática postura, impunha-se naquele hall, como um general na frente das suas tropas e espalhava-se por toda a casa. Ninguém me ficava indiferente. Era carismático e possuía uma imagem envolvente, como o amor daqueles dois.
Eu sou um dálmata de nível, sóbrio e com um certo pudor, por isso não me vou pôr aqui a relatar a intimidade dos meus donos. Mas que subiam paredes, ai isso subiam!
Pronto, já que insistem, eu desbronco-me um pouco. Mas só um bocadinho.
Não estou a cometer nenhuma inconfidência - os vizinhos do prédio são testemunhas - se vos disser que havia festa todos os dias. E noites.
Ele era caixas de bombons e ramos de flores exóticas, às sextas; técnicas acrobático-sexuais aos sábados; reflexões tântricas aos domingos e ramboiada da grossa, às segundas e quartas. Nas terças e quintas, jantares românticos em trajes sadomaso e desenvolvimento do léxico amoroso do casal: pombinha, fofinha, pote de mel, arrufada, patanisca, aboborinha e meu rabanete.
Mas não se esqueciam de mim. Era tratado imaculadamente. Davam graxa ao amor deles e puxavam-me o brilho com sonasol verde. Estudavam-se um ao outro e limpavam-me o pó com minúcia. Mergulhavam horas em perfumados banhos de espuma e colocavam-me no buraco que tenho na base, um perfumado sabonete de alfazema.
Todo eu rutilava e o meu corpo mais não era, do que um espelho reflector da feliz vida de casados da Mariline e do Ismael: plena de atenções, excitações, miminhos e beijinhos.
Mas não há fome que não dê em fartura. Com o tempo, fartaram-se da marmelada. Foram escasseando os bombons e as flores. Os dias marcados para as suas loucuras, também sumiram do calendário. Eu ali no meio do hall, já numa posição meio enviesada, como a relação dos meus donos. A cabeça virada para a porta da cozinha. O pó acumulara-se no meu corpo, os ácaros faziam pouco de mim, o brilho da minha louça, outrora o centro nevrálgico daquela decoração, esbateu-se-me, ganhando uma película baça, levemente gordurenta.
Depois começaram a gritar um com o outro, a arremessaram objectos: a colecção das caixas de bombons, os ramos de flores secas, os cintos de ligas, o chicote e as algemas. Esgotadas as peças do seu amor, depressa se voltaram para algo mais prosaico: frigideiras, jarras e comandos de televisão.
Fiquei sem uma orelha, ganhei um buraco no lombo, perdi um olho e esfolei o focinho, ficando marcado para o fim dos meus dias.
Hoje em dia, não me fazem caso. Já não me limpam o pó, ignoram-me a perda do viço, não me lavam e esqueceram-se do último sabonete de alfazema dentro de mim, só resta o invólucro vazio. Arrasaram como o meu orgulho de dálmata autóctone, fazendo-me reduzir a um vulgar enfeite. Um bibelô inútil, sem salvação.
Que saudades dos meus colegas da loja de decoração. Onde estarão todos vocês? Que donos lhes coube? Que vidas presenciaram? A fonte de pedra com o menino a jorrar água pelo cântaro; a sevilhana orgulhosa disposta em cima da cama lacada; os pratos de louça azul, com provérbios e ditos populares; os sofás de veludo verde, em capitonê; os centros de mesa com frutas plásticas. O quadro do menino da lágrima.

E a menina, que nos conta você querida almofada?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

meu o início, vosso o final #1

Congelo sempre mirtilos no inverno. Só assim posso utilizá-los durante todo o ano em marmelada, sumos e bolos. Quando eu era criança, o meu avô contou-me numa das suas muito fantasiosas histórias, que existia um reino de princesas do gelo, exímias amazonas e caçadoras nocturnas, com uma visão apuradíssima, devido aos vinhos tingidos com mirtilo.
Caçavam pirilampos incandescentes, pó incendiado e desperdiçado nas caudas das estrelas cadentes e velas voadoras, para iluminarem o seu reino nos invernos sombrios das montanhas onde vivam.
Um dia, encontraram um mirtilo descolorado. Muito infeliz e sozinho, esmagado numa bola de neve. Olharam para ele com espanto e...

...e agora, caros leitores do meu blogobairro, continuam vocês a história. Aqui ou no vosso blog.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

complicadas, nós? #3


Todos temos códigos corporais, de linguagem, de vestuário. As almas masculinas mais desatentas - quase todas por sinal - evitariam muitos constrangimentos, desarranjos, acaloradas disputas, enguiços, polémicas e quezílias até, se prestassem mais cuidado a algumas das expressões, que nós mulheres emitimos atempadamente.
Assim, muito seria poupado se tomassem em atenção simples frases, proferidas em tom escarninho como: Esquece! Não tenho nada! Deixa que eu faço! Obrigada, eu resolvo!
Queridos homens, desatenções fatais como estas, leva-vos irremediavelmente a escutarem a frase das frases: Precisamos de ter uma conversa!
E neste tipo de conversas, já sabem quem é que ganha sempre...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

exercício #2: suspense?


Precisava de se isolar. Deixou-se ficar para trás, naquela desordenada cozinha cheia de suja louça, encavalitada num exercício de equilíbrio pouco seguro. As luzes já estavam fracas, pastosas e arrastadas, como aqueles sonhos que não terminam, mas conseguiu distinguir num canto escuro, a solidão de uma única laranja ainda por descascar, esquecida à sangria de champanhe.
Retirou do suporte uma faca afiada, daquelas de lâmina luzidia e reflectora, que fazem suster a respiração se empunhadas com destreza. Pôs-se a observá-la com cuidado, subindo-lhe à ponta dos dedos uma tensão nervosa, rogando-lhe que a usasse.
Lapidou a fruta tímida e descolorada, primeiro de forma subtil e delicada, mas à medida que a acústica do silêncio fazia ouvir os silvos do facalhão na bancada de aço inoxidável, fazendo clara concorrência com as estridentes buzinas dos carros, lá fora no vendaval da noite, ele entusiasmou-se e em três golpadas certeiras, desfez carrascamente o aflito fruto em pedaços, provocando-lhe um desmaiar fatal de sumo escorregadio.
A inexperiência fê-lo falhar o último golpe. E no chão de mármore branco impoluto, misturaram-se numa dança lenta, a espessidão encarnada do sangue fresco da sua mão,
com a seiva doce da vítima.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

crónicas de graça # 4


Viajar ou Turistar

O turistar é assim a modos que um exercício de parolos. Uma espécie de obsessão de multidões. Que sobem e descem a torre Eifel num frenesim dos diabos, levam à letra aquela de ir a Roma e não verem o Papa, caem na esparrela da compra de souvenirs nos pontos hiper-turísticos, crêem que encontraram numa loja recôndita, uma das chagas de Cristo, um pedaço do Muro de Berlim, uma página inédita do diário da Anne Frank e prestam um culto mórbido, a canecas com a cara da falecida Diana. Tudo arrumadinho dentro de um saco de lona, com República Dominicana a letras garridas.
São inofensivos. Mas muito felizes, já o testemunhei. Acho-lhes um piadão e por vezes junto-me: também tenho uma t-shirt branca com o I Love NY, caramba!
O verdadeiro turista almoça e janta nos restaurantes de junk food, parece maluquinho na conquista da foto da praxe, com o monumento mastodonte bem ao centro e a sua figurinha de sorriso imbecil lá pespegada,
cheia de malas à tiracolo e ainda o saco plástico do duty free.
A sua maior ambição, é portarem-se como um japonês na Europa: aglomerações de gente pequenininha e morena, sempre a sorrir e de passinhos apressados. Pessoinhas miudinhas, que se nos atravessam na frente da lente, quando finalmente conseguimos focar a imagem ideal. E nem dão conta do estrago, seguem em frente, sôfregos, proferindo um encadeamento
de frases totalmente onomatopaicas, ditas em tom samurai. Sem pausas para respiração.
São os melhores clientes das excursões organizadas; carregam três ou mais gadgets ao pescoço; observam tudo de corrida e de esguelha com o olhar mais vivo que já vi; acenam com a cabeça a cada explicação e clicam dez fotos da mesma imagem.
Ora bem, eu também turisto alguma coisa, principalmente se não conheço o sítio. Não dou é muito nas vistas, apesar de ter tiques parolos, isto é: se eu vou a um local que nunca visitei, cá ou lá fora, eu quero saber de tudo: vejo e revejo blogs de viagens, google maps, sites oficiais, links vários. Vou do consulado à junta de freguesia; já para não dizer que fico íntima de todos onde busco informações. A páginas tantas, já sou eu a dar dicas aos turistas: uma perfeita parola, portanto.
Há um senão, raramente me meto em excursões cheias de gente. Depois
é assim tudo muito à vontade, levamos encontrões, sentam-se quase ao nosso colo, oferecem-nos pastéis de bacalhau, dançam o fandango, beba lá uma pinga oh vizinha... e eu que não gosto nada de vinho de garrafão. Manias.
Outra característica do verdadeiro turista, são as compras. Aí, alto lá: sou imbatível. A rainha das parolas. Não há loja que me escape: da boutique à livraria, do mercado à feira de rua, das lojas de chocolates e compotas, às de chás e cafés, passando pelas lojas de souvenirs dos museus e fundações. E as papelarias e artigos de escrita? Oh senhores, entro em ebulição.
E postais? O que eu trago de postais? Mas Patti, já tiraste duas mil fotografias, para que queres tu tantos postais?
Não percebem nada.
Tem lá algum jeito uma pessoa turistar e não tirar um dia inteirinho para as compras? Um dia e meio, vá. Na pior das hipóteses.
Até ficava maldisposta, poderia dar-me uma apoplexia, uma crise de identidade, uma fraqueza no meu Eu: não saber quem era, perder o rumo, assim, no meio do estrangeiro!
E depois, a segunda mala que levo sempre comigo quase vazia, tornava à pátria cheia de quê? De ar? Que desperdício.
E não preciso de companhia, nem incomodo ninguém. Vou muito bem sozinha.

barcelona, foto minha

Mudando o tom para algo mais repousante e antes que ao meu querido parceiro, lhe dê uma travadinha depois de ler o que escrevi acima, direi que viajar, é outra coisa caros leitores.
Eu viajo por defeito, isto é, passeio-me sem rumo, calcorreando ruas e passeios, praças e jardins. Faço-o por costume. Veio-me no adn.
Gosto de olhar para cima; do meio para cima. Observar os traços dos prédios e das casas, as águas furtadas, ver onde chega e bate a copa das árvores, espreitar as cortinas das janelas mais altas,
ver quem lá mora e que vigia os que passam em baixo, sem saber que também é notado.
Os espelhos da luz. A diferença dos efeitos que ela provoca. As fugas das
gelosias.
Este meu viajar-passear-desfrutar sem norte, é feito de forma mais descontraída, sobretudo nos locais que já conheço. Nos sítios de que mais gosto e onde posso vaguear e me perder, na expectativa semi-secreta de encontrar alguma coisa que ainda desconhecia e que me tenha escapado de outras viagens. E quase sempre encontro. É o usufruir sem compromisso que me atrai, o inusitado da surpresa, o prazer do destapar ainda mais.
Viajar assim, é um estado de zona de conforto, de quase repetição mas com mais bagagem para ir enchendo a memória. Será isso, talvez: um exercício de memória que carrego sempre para onde vou. Sinto muitas vezes que sou o que sou, pela memória que trago.
E depois cair no lugar comum das recordações. Lembrar os locais, os cheiros, as pessoas, a comida, a temperatura, o chão, as vozes. Os pormenores. Falar de como foi a vida, vivida noutro tempo. Noutro lado. Mesmo que esses tempo e lado, tenham sabido e durado pouco.
Mais um pedaço para a memória, registado no meu terceiro braço: a máquina fotográfica.

sagres, foto minha

E o Carlos, o que tem para nos contar?

Crónicas de Graça #1, #2, #3