terça-feira, 29 de abril de 2008

as vencidas


No desafio da Blue de alguns posts atrás, a pergunta que me ficou a passear na cabeça foi a 9ª, a que me pedia para escolher uma mulher.Eu respondi: 'Todas. As vencedoras, mas principalmente para as vencidas'. E vi logo que a resposta me soube a pouco e que já me estava a ferver na cabeça mais um post.

Ou eu já não me conhecesse tão bem. Escolho as mulheres vencidas em todos os sentidos.


O meu pensamento vai para as intimamente infelizes, as que não conseguiram/não optaram/não puderam/não as deixaram viver de outra forma a não ser a que lhes foi transmitida e não sabem existir de outra maneira. Para as humilhadas e usadas pelos outros; patrões, colegas de trabalho, filhos, maridos, amigos, que por vergonha, por medo, por baixa auto estima deixam-se subjugar uma e várias vezes, durante toda a vida. Para as soberbas, que do alto da sua vaidade e arrogância, são umas solitárias, mal amadas, iludidas consigo mesmas e que vão acabar sozinhas ou, na melhor das hipóteses, junto de outros iguais a elas. Para as deprimidas crónicas, que apesar dos dias de sol continuam só a ver chuva, que só se lamentam e não agem, que só esperam e não procuram, que só sabem ser tristes e nunca vão ser contentes. Infelizes de nascença. Para as que foram enganadas pela ordem natural das coisas e perderam um filho, muito antes de se perderem a si próprias. Para as indigentes, sem casa, sem colo, sem comida, que sobrevivem nas ruas, na droga, no álcool, na fome, na solidão, no frio, no medo. Para as maltratadas pela vida, as abusadas, as vexadas, as violentadas, as desrespeitadas, que quando têm a grande coragem de dizer basta, muitas vezes perdem casa, bens pessoais, liberdade, identidade mas sobrevivem.

E para as que me doem mais. As prostitutas. Não fosse eu tão mulher quanto elas.


Apesar do papel de todas as mulheres anteriores ser terrível, cada um à sua maneira, fica sempre aquela ideia de que à priori não foi uma opção delas viver assim, mas mais uma vicissitude da vida da qual será, aparentemente, mais fácil sair, ou que haverá alguma ajuda de alguém com um braço estendido. E que existirá, mesmo que ténue, uma luz ao fundo do túnel, uma nova oportunidade.

As segundas oportunidades para prostitutas, raramente aparecem. Há muitas coisas implicadas; drogas, proxenetas violentos, preconceitos, perseguições, falta de alternativa de trabalhar noutra coisa. E mesmo que consigam guiar a vida para outro lado, as cicatrizes devem ser das mais difíceis de curar. Proliferam na pele. Sempre que passo na rua por uma prostituta fica-me sempre um amargo de boca, uma tristeza enorme e uma raiva incontrolável sempre que ouço comentários pejorativos e ofensivos. São insultos que me fazem sentir ódio, tenho ganas de andar à bofetada e de partir a cara a alguém. É como se fosse comigo. Sinto-me exposta.

Haverá vida mais humilhante, mais insegura, mais violenta, mais corrompida, mais exposta, mais dependente, mais triste e desamparada? Passada na rua ao frio e à chuva de noite e de dia? Apetece-me pegar-lhe na mão e levá–la dali. Mas não posso. Como será, quando se volta para casa, muitas vezes roubada, agredida, sem dinheiro porque o trabalho não rendeu, drogada, doente e 'morta'?

Existem filhos que as esperam para comerem o pequeno-almoço, para os levarem à escola, para lhes fazerem um carinho, para os levarem ao parque infantil, para lhes aconchegarem a roupa antes de irem dormir? Certamente que existem! Porque não? Ou não seríamos todas mulheres iguaizinhas, que lutam diariamente como podem, que também têm casa, filhos, família, horários para cumprir, contas para pagar, idas ao médico, compras no supermercado para fazer, responsabilidades para assumir.


Nunca me esqueci de uma reportagem sobre a prostituição em Lisboa em que falaram com uma miúda nova que já tinha um bebé. Vivia numa pensão miserável e barata e todas as noites ia buscar o filho à ama. Então e o seu filho costuma jantar o quê? Ele já vem jantado da ama, mas eu dou-lhe sempre um biberão antes de dormir, feito com o leite que me dão no banco alimentar. Mas este mês o trabalho não rendeu muito, sabe, não comprei a botija de gás e cortaram-me a água da pensão porque não paguei a renda. Então e como é que lhe faz o biberão de leite? Vou lá fora ao chafariz e dou-lhe assim mesmo.

Frio!

. . .

E eu chorei.


34 comentários:

LeniB disse...

As vencidas, muitas vezes, são vítimas de si próprias.
Como tudo na vida, há que saber fazer escolhas.
Há quem tenha escolhido ser cabeleireira, médica...e quem escolheu ser prostituta, como há uns tempos ouvi um programa na rádio, porque se ganhava dinheiro mais facilmente e a granel.
Dessas, sinceramente não tenho pena.
Tenho pena, sim, daquelas a quem alguém promete mundos e fundos, obrigando-as, depois, a prostituir-se, chegando mesmo a serem violadas pelos raptores.

Patti disse...

Não é das primeiras que eu estou a falar, mas das segundas.
Apesar de lamentar umas e outras.

Gi disse...

Eu sei que tu estás a falar de um dos lados da medalha "vencidas" ... mas também há o outro.
É como tudo, dois ládos, pelo menos, existem.
Eu sei que não presto mesmo nada, mas estou cada vez mais indiferente e não tenho a capacidade de empenhamento que certas pessoas têm ... também me considero uma vencida daquelas que não merece colo, nem mimo.

de dentro pra fora.... disse...

Tu choras-te! e a mim quase me puses -te a chorar , com esta ultima frase...
Ás vezes não temos noção do quão dificil é ser mulher, querer ter para dar ...e estar de mãos vazias..

Patti disse...

Gi:
Não é nada essa a ideia que tenho de ti. E não o digo por dizer, para parecer correcta, são alguns dos teus posts que mo confirmam.
Ainda ontem, provaste duas vezes que não és uma pessoa indiferente e sem empenho. Ora vai lá ver. Temos é dias menos bons, como toda a gente.

Gi disse...

Eis-me aqui, obediente!
Para já deixa-me corrigir-me a mim mesma: lado não leva acento, ok?
Não venha cá a fã, de quem eu tenho imenso medo :))))))))
Tens razão ... mas tenho pena de não ser mais e isso faz-me sentir muitas vezes mal comigo mesma.
Obrigada pelo teu carinho e ... já tens resposta ao post vermelho & encarnado & escarlate.

Nina disse...

Outro dia mesmo Patti, estava pensando nas dificuldade que vivem as prostitutas e de como as pessoas falam mal delas sem entender suas razoes. Não sei, não entendo e por isso mesmo, evito comentar, entende? o que leva uma mulher a seguir com tal atividade, deve ser algo duro de se compreender, por isso mesmo o respeito que tenho.

Um beijo pra ti

Patti disse...

Nina:
É isso que eu mesma sinto. Muitas vezes não entendo, nem as prostitutas nem outras opções de vidas de outras mulheres. Mas quem sou eu?
Uma sortuda.
E por isso tenho e devo olhar para o lado e nunca condenar, mesmo que vá contra à forma que eu escolhi para levar a minha vida. São mulheres tal qual como eu e tu, só que com vidas mais tristes, mesmo que tenham escolhido viver assim.

Ev@ disse...

Aqui fica um Conto Indío, que se encaixa perfeitamente no post de hoje:

Uma noite,um velho índio Cherokee falava com o neto sobre a 'batalha' que é travada dentro de todos nós.
Dizia ele: Filho, a batalha cá dentro é entre dois 'lobos'. Um é o mal. É raiva, inveja, tristeza, ganância, arrogância,auto-compaixão, culpa, ressentimento, inferioridade, mentira, falso
orgulho, superioridade e ego. O outro é o bem. - continuou - É alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, simpatia, generosidade,verdade, compaixão e fé.O neto ficou uns minutos calado a pensar e depois perguntou: 'Avô!Qual é o lobo que vai ganhar?'
E o velho índio respondeu:
'Aquele que alimentares!'

Verdade não? Nem sempre é fácil, mas a escolha pertence-nos sempre.

Patti disse...

Eva:
E noutros casos, escolhe a vida por nós.

Ev@ disse...

Esses são aqueles que não controlas, a morte, os acidentes ou as doenças, mas mesmo nesses momentos a escolha de seguir em frente com a tua vida está na tua mão.

Paulo Tomás Neves disse...

A História é normalmente feita pelos vencedores, aos vencidos da vida restam algumas notas de rodapé. Num momento em que existe, de facto, alimento suficiente no mundo para ninguém passar fome, aumentam extraordináriamente os preços dos cereais, levando ao aumento da fome. É por causa do biodisel, por causa do aumento do preço do petróleo, por causa... é sempre por causas que acontencem as consequências

Patti disse...

Paulo:
É verdade. E ainda ontem ouvia nas notícias que o preço do arroz iria subir para o dobro. E quem vai pagar isso não é preciso eu dizer.

Menino Bonito disse...

Acabar com o privilégio, seria um princípio para que muita coisa se alterasse; privilégios como:

- ter emprego;
- almoçar, jantar, cear;
- sorrir;
- sonhar;
- amar...

Deveriam ser um direito de todos nós, certo?

Torna-se frustrante ter que escutar diariamente o mesmo discurso do colega do lado, do vizinho, do fulano do restaurante… quando iniciam as frases da mesma forma:

“és um privilegiado, porque tens emprego”;
“és um privilegiado, porque jantaste uma costeleta de novilho”;
“o teu filho é um privilegiado, porque estuda num colégio às direitas”… etc etc

Ka disse...

Patti,

Vou directamente às mulheres que são vencidas por circunstâncias na vida. Mulheres...e homens porque também os há!
Acredito que todos nós fazemos o nosso caminho! Mas também acredito que é necessário ter-se sorte na vida.
Por vezes o que distingue estas pessoas de nós, foram determinados momentos nos quais a sorte não esteve do lado delas: a sorte de nascer numa família normal, a sorte de conseguir um emprego porque houve uma "cunha" que passou à frente (e o nosso país é pródigo nelas!!) a sorte de ter alguém, mesmo na idade adulta que nos dê apoio e nos diga que caminho seguir quando nós noo meio de um problema não temos a distância crítica para vermos e medirmos bem tudo.
Não gosto muito do sentimento de pena pois acho um sentimento triste, mas de facto nestes casos fica uma sensação de dever não cumprido pois todos nós poderiamos fazer alguma coisa.

beijinho

Muito bom este post!

Patti disse...

Ka:
Concordo em absoluto e este post é o prova disso. E também não sinto pena antes impotência e tristeza e é disso que falo.

BlueVelvet disse...

Querida Patti,
quando respondeste ao desafio, que acho me esqueci de agradecer,percebi perfeitamente o que quiseste dizer.
Embora este texto esteja comovente.
Vim aqui para te dizer que as obras foram intermináveis.
Em qualquer caso, voltei, e o champagne está servido.
Srª decoradora a sua falta será muito sentida.
Veludinhoa azuis

Patti disse...

Blue:
JÁ LÁ 'TOU! FUI!

Pitanga Doce disse...

PATTI, não há muitos Richard Gere a procura das "raparigas" para fazer delas Julia Robert em Uma Linda Mulher. Elas sofrem e muito.

Mas não podemos negar que existem aquelas que querem sair nas capas de revista com os jogadores de futebol e depois arranjam um filho para irem a tribunal. Há de tudo, e a estas tenho vontade de bater porque envergonham as mulheres que trabalham, sejam elas em qualquer profissão e por qualquer motivo.
Nas cidades grandes vê-se de tudo e às vezes, temos que usar uma carapaça para não sofrermos demais.

beijos, Patti, e já dei uma espiadinha na Blue. Betty Boop é o máximo! Um charme!

Coragem disse...

Já também eu, fiz alguns post's dedicados às mulheres...tentaste coloca-las todas aqui, as que não se erguem, as que não se querem erguer, as que não podem fazê-lo as que não conseguem.
Nunca abordei o tema da prostituição, conheço mal, não por me ser indiferente, mas por ter conhecimento minimo e como tal não me atrevi.
Eu não gosto de sentir pena por ninguém, e nem todas são dignas de tal.
Aqui mencionas as de rua, mas há as que não o são, bem cuidadas e ganham fortunas.
Lamento mas dessas não tenho qualquer pena.
O post uma vez mais está magnifico, aprofundas sempre as questões, e não nos deixam indiferentes.
Beijinho

f@ disse...

Qto arrepio e tristeza me causou a leitura deste texto ... porque diz de uma forma tocante o que vamos observando no caminho da vida....
embora tb me cause arrepio e tristeza a ignorancia e o preconceito daqueles a quem tudo passa despercebido ....
beijinhos

Patti disse...

Pitanga:
Esse é outro tipo de prostituição, quanto a mim mais digno de pena do que o do frio da rua.
E já fui à Blue.
Um Charme, só te digo!

Coragem:
Começas muito bem o teu comentário, quando resumes todas a mulheres e terminas melhor quando dizes que estes temas não nos podem ser indiferentes.
E ainda digo mais, como mulheres é impossível que nos passem ao lado.

F@:
Disseste tudo: o preconceito destrói mesmo e não hipóteses a segundas oportunidades.

JG disse...

Amiga, tenho muitos defeitos e algumas qualidades. Emocionar-me com facilidade não sei se é qualidade ou defeito. Prefiro que seja qualidade: parece-me que assim sou mais homem.
Bem hajas.

Patti disse...

JG:
Olha, agora quem se emocionou fui eu.
Tomara nós que todos os homens se emocionassem com mais facilidade.
Mas já estão melhores, bem melhores até.

paulofski disse...

Subscrevo em absoluto a opinião e o comentário da Ka.

Beijo.

Alecrim disse...

gosto de ti, vizinha!

Su disse...

Olá, passei aqui de manhã e fartei-me de escrever, um texto imenso, todo dedicado ao teu post de hoje, depois voltei agora e como já passa das nove da noite, li primeiro os comentarios, para ganhar balanço... pois acho que na realidade a ev@ disse tudo e qt a mim, muito bem dito o que escrevi de manhã!

Amanhã volto!

beijo soneca...

ines disse...

Voltei com mais tempo para te ler. Este tema tem pano para mangas como se costuma dizer, "vencidas"… cada uma terá os seus trunfos e as suas derrotas , as vitórias de umas serão derrotas para outras... entendo perfeitamente a tua angustia, a tua tristeza, mas não consigo, não quero não aceito, essa realidade de "vencidas"!

Patti disse...

Paulofski:
Então digo-te o mesmo que disse à Ka.

Alecrim:
Temos e devemos olhar para o lado sem preconceitos e condenações. E a vida é para ser vivida e não sobrevivida.

Su:
É uma história bonita. Mas as escolhas não são iguais para todos, infelizmente.

Inês:
Eu também não aceito, nem quero para mim o "vencida", até porque tenho uma maneira de estar na vida que é oposta a essa.
Mas que existem vencidas e sempre vão existir é um facto, mesmo que eu não queiramos e lutemos pelo contrário.
Pano para mangas como tu dizes. E não tem só duas faces, esta moeda, tem várias até.

migvic disse...

Tenho pena dessa gente, desses farrapos de gente.

Mesmo com a anestesia da droga deve ser uma agonia de vida.

Olá!! disse...

O tema da prostituição é complicado, há quem o faça por opção e há quem não tenha opção ... nunca nos esqueçamos que é a mais velha profissão do mundo, só que chegou a um extremo que choca... choca muito...

Abordaste o tema de uma forma sublime, Patti, mas no meu ponto de vista as mulheres vencidas, deixam-se derrotar por factores muitas das vezes superáveis... tal como as prostitutas, há vencidas por opção e por falta de opção, mas na maioria por falta de garra... a vida é uma luta constante, mesmo para quem tem a sorte de ter uma vida estável...

Tanto para dizer...

Beijossssssssss

Patti disse...

Migvic:
É isso que lamento nas pessoas, a vida é mesmo SÓ UMA e mesmo assim vivem-na em agonia.

Olá:
Tanto p'ra dizer, claro que sim! Nunca mais daqui saíamos.
Umas vezes falta de garra, outras falta de opção, outras falta de qualquer coisa que só sabe quem passa por elas.
Nós todos, felizmente, somos só assistentes na plateia.

Sunshine disse...

Li o teu belíssimo texto. Não se foi das hormonas, ou porque, o retrato que pintas é tão real que fiquei comovida...também fez-me lembrar algumas que conseguiram passar de vencidas a vencedoras!
Mais importante é não nos esquecermos que poderíamos ser uma das mulheres que tão bem descreves e respeitá-las e tratá-las como gostaríamos que fizessem conosco.
beijinhos.

Diana Amaral disse...

:)! Parabéns pelo blogue e pelo conteúdo que apresenta!!