quarta-feira, 30 de junho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
[15] bom fim de semana
Há livros que se agradecem.
Por nos mostrarem que o difícil engenho da escrita, pode parecer tão fácil.
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
metáforas
Livro: folhas, papel, maço, folhoso, encadernação, viagem, sonho, companhia, meditação, descoberta, desafio, encontro, luz, mundo, insónia, silêncio, recordação, gozo, obra, branco, livraria, estante, ideia, mundo, fantasia, comoção, vida, devaneio, colisão, centro, acalmia, perdição, despertar, música, fantasma, brilho, escalar, aberto, inspiração, tempo, saída, fuga, razão, provocar, memória ...
segunda-feira, 21 de junho de 2010
folhear
Acompanho música com tudo. No paredão, a guiar, a conversar, no despertador a acordar, a comer, no blog, a esplanar, a trabalhar, de fundo durante uma reunião, a cozinhar, nos passeios fotográficos.
E a escrever então, é essencial. Basilar. Sustentáculo.
Mas a ler não.
Sem ler não dá para ser.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
meu o início, vosso o final #3
Durante o dia ninguém o vê. Trazem-lhe da mercearia as encomendas que ele deixa escritas numa lista, presa numa pedra junto ao portão da casa.
Quando se recolhe no banco de pedra, debaixo do manto de glicínias lilases, Maria espreita a casa amarela por entre a vinha, na esperança curiosa de vislumbrar alguma coisa. Ou alguém.
Mas nada. Há um mês que ali se encontra em recuperação e do seu vizinho músico nem um sinal.
Só notas incómodas de um piano nocturno, que lhe rouba horas de sono.
...e agora, leitores do meu blogobairro, continuam vocês a história. Aqui ou no vosso blog.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
crónicas de graça #13
- os dramas de uma mulher -
Eu sou daquelas que rogo a todos os santinhos do desporto, para que não andemos nunca metidos em mundiais e europeus. A minha vida vira um inferno, ainda ninguém sabia se íamos ou não jogar lá nas áfricas, já a minha rica moradia se encontrava enfeitada de cima a baixo de bandeiras verdes e encarnadas; a fonte de pedra colocada no meio do jardim, com um menino a deitar água pelo cântaro, foi o Adérito substituí-la por uma imagem do Cristiano Ronaldo, esculpida numa daquelas poses que o rapaz faz, com a bola equilibrada na cabeça; a colunata com alcachofras que ladeiram o portão, foram mudadas para bustos do senhor Queiroz; no azulejo por cima do alpendre, pintado com a Senhora de Fátima, vai ele e manda desenhar um par de vuvuzelas entrelaçadas - só dessas malditas cornetas zulu, já cá tenho oito - e como se não bastasse, encarregou-me de bordar os nomes dos onze jogadores, numas camisolas de alças que ele comprou à Alcina, a cigana da feira cá da freguesia. É que vocês não estão bem a ver, aqueles homens todos, gordos e peludos, de camisolinha de alças, a chorar, aos abraços e encontrões, pois não?
Anda-me desarvorado, o homem.
-Oh melhér, eu não tenho cá tempo para logísticas, trata tu das comezainas e da beberagem, por favor. Tenho programas muito interessantes, para assistir sobre o mundial na televisão, que servem para um gajo se preparar em condições para o campeonato. Ainda para mais, são todos muito diferentes uns dos outros, com comentadores eruditos, de visões futuristas, intelectuais até! E os jornais que tenho de ler? Notícias espantosas, originais, sem especulações, nem mentiras e boatos. É assim que um gajo se cultiva, oh Brucelina. Nos dias em que joga a nossa selecção, devia ser feriado nacional!
E pronto, a conversa não passa disto: que ler a Bola é ter interesses literários; que se o povo gosta é disto, então é só disto que lhe devemos dar, quais livros, teatro e cinema, qual carapuça; que o futebol devia ser disciplina obrigatória nas escolas; que se deve impingir nos nossos filhos mal nasçam, que quais cursos quais quê, há que estar mas é de olho nos carrões, nos brincos reluzentes e nas loiraças dos rapazes do futebol.

Em dia de jogo, coitadinha de mim, nem quatro horinhas durmo eu seguidas. Há festa da grossa aqui na moradia, pois abancam cá os amigalhaços do Adérito, e quem arca com tudo, é aqui a Brucelina d'Ascenção Peixoto. Essa é que é essa, meus amigos!
No gravador da sala, já lá grita vai para uma semana, o hino nacional, cantado pelo coro aqui da junta; em fila indiana, na arca frigorífica já eu alinhei e aconcheguei, para cima de uma meia dúzia de grades de cerveja; cozi pela madrugada duas tachadas de caracóis, com nacos de toucinho; encomendei um alguidar de tremoço gordo; salguei de véspera dezenas de couratos, febras e costeletas do lombo, para os maganões parceiros do Adérito.
E se nós perdermos? Eu rezo de novo a todos os santinhos, mas desta vez aos das colectividades desportivas, que me acudam. Há lá coisa pior de aturar, do que homens trombudos e descompensados com dissertações futebolísticas, discussões de pedibola e polémicas do balípodo?
Minutos antes, aquele jogador era o melhor da equipa, agora é a pior porcaria que já alguma vez pôs os pés no esférico, o não sei quantos é que devia ter sido seleccionado para guarda-redes, mas agora este, que defendeu dois penalties, é o magnata das redes, o treinador não pesca nada do assunto, mas como ganhou hoje, já é o rei dos relvados, o presidente da federação só lá está porque quer viagens e tacho, mas como ficamos nos primeiros lugares, é um homem trabalhador e honrado, a nossa participação nestes campeonatos dá nome à nação, mas se vimos de lá sem glória, só servimos para gastar o dinheiro dos contribuintes e cooperar para a falência da pátria mãe. Livra, gentinha esta que não sabe o que quer!
Mas o meu Adérito diz que não é nada disso, sou eu que ouço coisas e que não entendo nada de cultura, que não tenho noção do que falo.
O que eu sei, é que até gosto que os rapazes joguem bem e venham de lá satisfeitos, isso sim. Mas chega e basta.
Agora torcer, torcer, com os salários que eles ganham, com os prémios que recebem, com os contratos aos champôs linic e outros que tais, e com a trabalheira que eu aqui vou ter por causa deles, eles que torçam mas é por mim: Brucelina d'Ascenção Peixoto!
E o meu querido parceiro, conhece algum outro género de apreciador?
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tags mundial de futebol
quarta-feira, 9 de junho de 2010
uma receita
A sensação de que deveria aceitar aquele convite, tornou-se ainda mais forte, quando juntou o brilho do açúcar às claras e teve de as bater sofregamente.
Até se encheu de calores. Parecia que a receita crescia em seu favor, fermentando esta sua nova vontade.
E o aspecto do creme? Magnífico se tornava a cada gesto. Principalmente, depois de Pimpinella lhe ter juntado a gelatina de morango.
Mas foi no momento em que as claras se tornaram altas e duras, ocasião indicada para lhes verter o sumo de um limão, que uma gota lhe fugiu do fruto e lhe arrepiou um pequeno arranhão que tinha na mão. O ácido fê-la atirar um grito pelo ardor, e ao invés de se refugiar no sofrimento, o intenso queimor acometeu Pimpenella de um daqueles desejos fortes, quase físicos, que não reconhecem barreiras. Só metas.
Por altura de encher o saco de pasteleiro e moldar os suspiros, sobre um tabuleiro forrado a papel vegetal e o meter no forno, já Pimpinella, num instante de irrevogável verdade, ganhara todas as certezas do mundo.
Iria mudar de vida e começar a trabalhar na célebre doçaria.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
crónicas de graça #12
Gostaria de deixar aqui bem claro, que não entendo o convite para a minha participação nesta Crónica de Graça, apesar de muito me honrar, mas cá vai a minha opinião.
Toda a gente aqui do bairro sabe, que sou uma mulher recatada, de poucas confianças e que não gosto de me meter na vida de ninguém. A minha existência não tem segredos: casa, mercearia, padaria, praça, igreja, jardim da Graça, 28 para a baixa e casa outra vez. Claro, que agora ando de namoro pegado com o Xavier do talho, mas é uma coisa muito séria, à moda de outros tempos. Namoro recatado, um compromisso sincero a pensar no futuro, encontros decentes, distantes o quanto baste e conversas como deve ser. Eu não quero abrir a boca, valha-me Santa Luzia, mas não sou como umas e outras que vejo por aí, sempre atracadas ao pescoço dos homens, que não os deixam respirar, vestidas de forma indecente, com roupa desonesta que revelam tudo ao bairro. Só ao bairro não, ao mundo! Que os motoristas daquelas camionetas todas que param aqui no miradouro, cheias de turistas esbranquiçados, bem que ficam de olhinho arregalado à coca das carnes rechonchudas, que saem debaixo daquelas vestimentas indecorosas. E elas gostam, as desavergonhadas, que eu bem as vejo lá da minha varanda, a rodopiarem pelos passeios e a roçarem-se no muros, lânguidas como gelados de caramelo a escorrer pelos cones de baunilha.
E as mães delas? Pior do que as filhas, só vos digo. Eu é que não gosto de falar de ninguém, até porque pelas costas dos outros se vêem as nossas, mas é que o raça das mulheres não me saem do parapeito das varandas todo o santo dia, no leva e traz, leva e traz, leva e traz. Caramba, até paninhos almofadados elas fizeram e colocaram no varandim, para não magoarem os refegos dos braços gordos e peludos, enquanto metem o bedelho na vida do bairro todo. Línguas de trapo, é o que é. Melhor faziam elas, aquelas aguilhões de lacrau, se fossem dar conta da barrela da casa, limpar os centímetros de pó de cima das camilhas, sacudir os naperons, arredar móveis e aspirar o cotão que cresce junto aos rodapés, arranhar a gordura da chaminé, arear os tachos e separar o gorgulho do arroz e do feijão catarino.
E isto, ainda não é nada. Eu é que sou mulher de não fazer alardes, escuto o que elas falam de umas varandas para as outras, enquanto rego as minhas plantas e dou de comer ao canário, mas nunca alvitro nada, nem sequer dou conversa. Isso queriam elas, as aleivosas.
E quando as comadres se resolvem encanitar umas com as outras? É que nem queiram saber. Aquilo é um lavar de roupa suja, um desce escada, sobe escada, um abre a janela, fecha a janela, um entra e sai das casas uma das outras, que eu nem sei como é que aquela gente dá conta de tanta bisbilhotice. Eu cá baralhava-me toda. A mim é que nunca me deu para ser quadrilheirona, mas se eu vos contasse as coisas que tenho ouvisto...
Bom, a Odete da peixaria é uma aldrabona de primeira linha. Na bancada só tem pescada de três dias que diz ter chegado agora da lota, e já o peixe está mais do que falecido e ainda ela apregoa feito varina, oh fregueeeeeesa, venha cá que é fresquinho! O Onofre, o padeiro que andou enamorado da minha pessoa como muito bem sabem, rouba no fermento e no açúcar das delícias folhadas, que eu quando o visitava de madrugada na ideia de trazer o primeiro cacete do dia, bem me apercebi da marosca. A Lurdinhas da mercearia é outra, tem sido sempre tão boa rapariga e até me ensinou estrangeiro e tudo, mas agora descobri que é uma grande lambisgóia. Então não se atraca a tudo o que é homem das entregas das paletes? Quer sejam elas de leite, de cerveja, de água com gás ou de saquetas de chá verde. Vai tudo a eito e depois queixa-se que é muito doente, que lhe sobem os calores, e que anda com os triglicerinos no máximo.
Eu é que estou sempre metida em casa, na minha lida e não me meto com a vida de ninguém, mas ainda assim, o mulherio morre de inveja de mim. Dizem que eu, Amelinha Santos de Jesus, uma santa e virtuosa temente a Deus, que até à missa ainda vou de véu, que jamais na minha vida usei um biquíni e que nunca vi nenhum homem de roupa interior, nem o meu Alfredo que já partiu, sou mas é uma grande interesseirona, que catrapisco todos os homens com estabelecimentos do bairro e - ouçam lá bem - que só ando de namoro pegado com o Xavier talhante, porque quero é saber dos lucros das febras e do entrecosto.
Eu, que até vegetarôna sou!
E o senhor CBO, diga-me lá o que é que pensa disto tudo. É jornalista não é...?
quinta-feira, 27 de maio de 2010
quando a hora avança II
Mas uma noite houve, em que Noctívago esquecendo-se de ler a história para adormecer antes que fosse dia, amanheceu sem que desse por isso.
Sentiu-se perdido, cego. Não conhecia nada do que via à luz. Aterrorizou-se.
Nisto, efervescendo das últimas sombras de noite, rasgava-se do fundo da terra um estado de incandescência fantasma de que a lua já lhe havia falado. Uma tal de estrela amarela que por meio do seu poder luminoso, desvendava sem permissão a segurança da escuridão de Noctívago, expondo à luz do dia os seus becos e segredos mais opacos.
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terça-feira, 25 de maio de 2010
junta de freguesia do blogobairro #4
E mais, com os poderes que aufiro, estendo esta celebração aos inquilinos que moram no continente do outro lado do oceano.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
a senhora ...
Pequenas coisas, que tornam as pessoas maiores.
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tags no paredão
sexta-feira, 21 de maio de 2010
vírus* num blog sério e familiar #12
(Não se esqueçam, façam uma pausa no expediente).
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tags hora coca-cola diet
quinta-feira, 20 de maio de 2010
corredor
Como todos os que conheço, aquele era um corredor esquecido e desprezado, por quem habitava o velho andar da Sidónio Pais.Tomado unicamente por um local de passagem, de acesso às outras divisões, era desprovido de qualquer tipo de interesse. A excepção era feita por antigas molduras, que revelavam fotografias de antepassados, exibindo nelas trajes de folhos, largos chapéus, cartolas luzidias, fardas militares, bigodaças farfalhudas e espampanantes penteados, armados em cima de pescoços enforcados em intermináveis fiadas de pérolas brancas ou laços de borboleta.
A pouca atenção dada ao corredor, seguia com a fraca escolha de luz, tornando tudo ainda mais taciturno.
No escuro da noite, ou mesmo na melancolia que é aquele período da tarde que nos empurra à sesta, os antepassados encaixilhados nas paredes, encetavam velhas quezílias familiares. Confrontavam-se entre si e discutiam o património mal dividido, heranças, partilhas, casamentos, adultérios, crimes, segredos e mistérios, apelidos familiares e outras tantas questões pertencentes a um pretérito muito antigo.
O peso das sombras, a presença de espíritos diáfanos, a solidão de um corredor sem vida e talvez também a solidão de quem o percorria todos os dias, enchia de um vazio cinzento, o velho andar da Sidónio Pais.
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segunda-feira, 17 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
crónicas de graça #11
Multidões assim não me incomodam. Não me perturbam os encontrões cheios de sacos de compras, seiras de vime, alcofas de junco, cabazes e cestos de verga. Sofro de imunidade aos pregões gritados, às discussões dos fregueses, ao barafusto das vendas.
Sou de pormenores, e aqui, apaixono-me logo pelo burburinho, o cheiro, a correria, as vozes altas, as folhas que a fruta ainda traz presa, a terra nas batatas, o preto das amoras, os vincos das sacas de serapilheira. Maços de notas que se folheiam em mãos enrugadas, a caixinha dos trocos, o calejo de dedos que apalpam a melhor fruta, os peganhentos frascos do doce de tomate, os ovos caseiros ainda de penas agarradas, extirpadas ao esforço da vítima.
E chamam-nos de freguesa, de menina, e de meu amor diga lá o que deseja.
Em Lagos, onde paro algumas vezes durante o ano, o mercado dos sábados é irresistível. Muito rústico, genuíno, mas onde os estrangeiros adeptos da agricultura biológica, se misturam - e bem - entre os agricultores de outros tempos e lhes dá uma riqueza especial.
E depois é vê-los, aos sabonetes de alecrim da holandesa ruiva e de piercing no umbigo, junto do queijo de figo da avó, coberta com um lenço de flanela de ramagens sombrias; legumes de nome impronunciável, plantados pela família Sherard, a par da alfarroba do monte do tio Malaquias; gaiolas de patinhos amarelos da menina Laura, que bicam saquinhos com chás zen, daquela alemã alta como um poste. Saias hippies, coloridas, compridas e rodadas sobre sandálias de couro, encarando socas de madeira, botas de borracha, saias de fazenda e meias grossas de tons pardos sem brilho.
E o melhor de tudo nos mercados e nas feiras, é que há qualquer coisa de passado abençoado, de memória feliz que não desarma, uma nítida presença de pessoas que já não estão connosco, mas que habitam estes locais.
Parece que andam por ali nas compras, junto a nós, dizendo para termos cuidado, pois a batata ainda não é nova, que o cebolinho quer-se fininho e rijo, as cerejas escuras, as castanhas grandes e lisas, os pintos amarelos, os coelhos mansos, o pão mal cozido, o queijo luzidio embrulhado em papel pardo, e que a fava rica se pesa ao litro.
Apertam os nossos dedos; mãos de avós permanentemente eternos, que nos levam a ver com orgulho em bancadas improvisadas, o desfile de presentes que a terra deu.
Mãos quentes. Sempre quentes.
E por esse mundo fora, meu querido parceiro? Conte-me tudo.
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tags mercados e feiras
terça-feira, 11 de maio de 2010
quando a hora avança I
Há qualquer coisa de presença mansa, mas ao mesmo tempo inquietante, surgida no Verão com a mudança dos ponteiros.Acontece que nesse furo do tempo, há um bebé que já não nasce, um amor que jamais se apaixonará, um encontro protelado, um ilustre feito por realizar, um poema por escrever.
É uma essência madrugadora, com corpo de luz que tarda em ser noite, disfarçada de perfume do mar das férias; uma espécie de estação fantasiosa, saqueadora de um tempo que não lhe pertence.
Diz quem sabe, que é essa entidade que habita a fonte da juventude; fabuladora da idade.
Despojadora estival de um interminável número de badaladas, usurpadas pela noite a todos nós, quando a hora avança no tempo quente.
Deram-lhe o nome de eternidade.
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tags só meu-entidades
domingo, 9 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
vírus* num blog sério e familiar #11
(Segurem as rédeas, meninas e apertem os freios!)
* diz que perfuma a cavalo e tudo ...
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tags nacho figueras
quarta-feira, 5 de maio de 2010
mais do sol
Assim, o coelho espreita desconfiado pelo buraco da toca; primeiro o nariz a tremer, depois os bigodes, os olhos à coca do inimigo e finalmente as orelhas. E volta para o seu ninho, não é cá doido de sair para o bosque todo lampeiro.
O urso por exemplo, limita-se a iniciar um longo espreguiçar, que dura para lá de uma semana. As andorinhas regressam pouco a pouco. As amendoeiras brotam um florir discreto. Outras árvores verdejam vagarosas. As brisas nascem suaves. O Homem ... bom, esse, meu querido blogobairro, é outra história que de contenção nada terá.
Já no ano passado, me apercebi do burlesco da situação e este ano o fenómeno repetiu-se.
A culpa foi minha, bem sei. Ninguém me manda esplanar a um domingo. Mas depois daquela chuvinha, nada fazia prever a marina invadida por ávida gente, despertada de um hibernanço forçado. Descurei e fui apanhada pelo magote dos inseguros do clima.
Este ano o tempo foi padrasto, é verdade, mas o espectáculo circense que se seguiu aos primeiros raios de sol, foi degradante.
Bom, esplanava eu sobre uma salada com todos, uma sangria branca e mais um livro, e eis que a maralha começa a surgir, naquela hora enervante, ali pelas três e meia quando todos os almoços com os sogros foram cumpridos.
Primeiro dei-me conta de um leve burburinho; talvez as ondas do mar, uma gaivota mais histérica, ou as crianças da escola de vela? Mas não. Nada disso.
Eram eles. A populaça desenfreada, que ainda sem ter tempo de pôr a arejar a roupa de Verão, marchava pelo deck da marina, exibindo botifarras com t-shirts, shorts e collants de vidro, as primeiras camisas de manga curta, horrendos casacos de cabedal ao ombro, mostrando peitos transpirados, pernas mal depiladas na correria do duche dessa manhã e guarda-chuva, não fosse o diabo ainda fazer das suas.
Mais pareciam terem atracado todos de um cargueiro, um bando de embarcados que não viam a mouraria havia muitas décadas.
Trincavam, mastigavam de boca aberta e sem pudores, os primeiros saquinhos de tremoços, amendoins e pevides do ano. As cascas? No chão, obviamente.
Cães de todas as raças pela trela. As bicicletas, as trotinetas, os skates, os patins e os triciclos. Os carrinhos de bebé, os carros telecomandados, as bolas de gelado esborrachadas no passeio, os gritos das crianças, o tráfego humano, o atropelo de gente excitada pelo sol. E eu.
Que fazer então, perante a ignomínia das gentes?
Já que a salada se me murchou de constrangimento e a sangria se evaporou com o escândalo, saquei do bloco de notas, ora bem.
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terça-feira, 4 de maio de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
ainda um até já
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
crónicas de graça #10
Nós tínhamos daquelas cestas bonitas, com divisórias e correias de cabedal para prender os pratos, os talheres e o termo do café.
O local eleito era a sombra larga do pinhal. De preferência isolado, sem outros piqueniqueiros por perto. Gostávamos de fazer a nossa algazarra familiar em privado.
Também me lembro doutro tipo de piquenique: às escondidas dos pais. Eram geralmente feitos por volta da meia-noite, quando tínhamos amigas a dormir na nossa casa. O menu previamente combinado - muitos séculos antes do telemóvel - através de bilhetinhos na sala de aula, que fluíam de carteira em carteira. Pão de forma com manteiga de amendoim, chocolate branco, pastilhas gorila, petas-zetas efervescentes, gomas da heller, línguas de veado e bombocas. Tudo escondido debaixo da cama, era trazido para cima do edredon entre risadas e shius receosos de serem descobertos pelos adultos.
E os piqueniques dos escuteiros, das excursões do colégio, dos grupos de jovens, das saídas de fim-de-semana com os amigos...
Ainda piquenico de vez em quando. Mas nada como antes. As pessoas esqueceram-se de como é, ou então o conforto do restaurante é mais apetecível. Comodismo, falta de ideia, pouca paciência. Não sei. Mas tenho pena.
Há dois anos, quando estive nos cinco dias das assombrosas festas da N. Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, assisti ao piquenique dos piqueniques.
Na verdade, aquela é a maior romaria do país e o ror de gente que atrai é inimaginável. Hotel, há que reservar com meses de antecedência, como fazem os prevenidos como eu, mas a oferta não chega para as encomendas e o grande magote de gente, chega a Viana nas famosas camionetas de excursões.
A sombra para o almejado piquenique é seleccionada e devidamente marcada, logo na alvorada. Não há cá azo para confusões. Território assinalado, o povo segue para a festa. Ao meio-dia regressam esfaimados e aí começa o espectáculo.
Malas térmicas, malas térmicas e malas térmicas. Cabazes e cabazes e mais cabazes. Cobertores, mantas e toalhas. Bancos, banquinhos e banquetas. Camas de rede, vejam lá bem!
Tachos embrulhados em papel de jornal, para o arroz de cabidela não arrefecer, panelas de sopa de entulho, pão a rodos, daquele saloio a estalar de bom, broa amarela, queijos do tamanho de mós, pernis de presunto luzidio, pão de ló caseiro, fruta sacada à árvore e por fim, o belo do garrafão.
E depois comem, e bebem, e cantam, e riem, e chamam, e gritam, e aplaudem, e jogam à bisca, e ao dominó e fazem crochê, e lêem o jornal, e for fim dormem. Preparando-se para os fogos da noite.
Estivesse a minha Amelinha ali comigo naquele dia, e aposto como se juntava ao repasto da turba.
E o meu querido parceiro, há quanto tempo não piquenica?
Ainda havemos de combinar um no blogobairro, para quando vier o bom tempo!
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
até já
Até já, blogobairro querido.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
crónicas de graça # 9
A leitura está hoje acima de qualquer outro prazer que eu tenha. Alcançou esse estatuto de soberania com o correr dos anos. Combatendo adversários tão difíceis como passeios, jantares, festas, praia, um cigarro, cinema, esplanar, música, fotografar, simplesmente não fazer nenhum, dormir e nos dois últimos anos, a escrita. Aliás, esta última, foi unicamente uma consequência pura e simples, das exigência e curiosidade com que eu cada vez mais me embalo nas minhas leituras.
Se houve coisa que sempre existiu em nossa casa, foram livros, música e fotografias. Tudo em muito. Depois dos livros de quadradinhos e dos de contos de fadas, não me lembro com grande certeza, qual tenha sido o título do meu primeiro livro a sério. Sei que tudo começou pelos Enid Blyton da minha irmã; páginas e páginas amareladas, preenchidas a letra miúda e apertadinha, igual à que saia da máquina de escrever do meu pai, quando eu brincava às professoras.
Foi este senhor e tudo aquilo que ele concebeu - sim, conceber é o verbo perfeito para tudo o que ele escreveu - o grande responsável para que eu aos oito/nove anos, tenha começado a ler sem parar e começasse a achar, que a leitura seria muito mais do que somente a história. Reparava eu, que por detrás das letras, havia segredos que o escritor tentava passar-nos, isto é, que podíamos aprender a ler através de uma lente, como se filtrando o trivial, buscássemos para além dele.
Depois vieram todos os outros autores, disfarçados de personagens nos seus livros de capa encadernada, lombada grossa, pintada a letras douradas. No tempo em que ainda se tomavam pequenas notas a lápis, se dobrava a ponta para marcar a página e se ofereciam livros com dedicatória sentida.
E quando descobrimos aqueles livros, que parecem ter sido escritos em voz alta? A sonoridade das palavras usadas, a crueza de umas, o lirismo de outras. Que personagens vivas são aquelas, sentadas no mesmo sofá que nós, acompanhando-nos à leitura? Uma extensão da nossa própria experiência, vivendo uma semelhante interpretação da vida, com quem nos identificamos, reproduzindo-nos tantas e tantas vezes.
Já li em muito ambientes, e ainda leio se não tiver outra hipótese, mas actualmente é o silêncio que procuro. A total atenção enquanto folheio o meu livro. Alcançar o porquê da escolha daquela palavra e não de outra, atentar à pontuação - ou à sua ausência - aprender com os diálogos, sempre difíceis de serem naturais, observar a narração dos factos, deliciar-me com o pormenor da descrição, que cada vez mais aprecio, viver as passagens do quotidiano das personagens, que as tornam reais e absolutamente próximas de nós, os leitores, usufruir do impacto emocional que o escritor traz ao papel e descortinar o enredo, obviamente. Mas este, nem sempre já é o mais importante; por vezes tornar-se-á secundário até. Tudo depende do mestre que desenha o livro.Leio para me melhorar a mim própria, me preencher; se calhar, me habilitar na vida. Não sigo modismos, tenho favoritos e cada vez, vasculho mais nos antigos, de todas as nações e épocas. E aprendo tanto. Tudo. Só lucros.
Quando temos a sorte de ler um grande livro, um livro marcante, toda a nossa consciência se altera. Mudamos. Há algo que não permanece com antes. Parece-vos pieguice, exagero, sentimentalismo? Então é porque ainda não encontraram o tal livro.
Escolham um livro, como se escolhessem uma paisagem onde pretendam desfrutar um mês inteiro de prazer.
Ou eu muito me engano, ou com o meu querido parceiro, também será mais ou menos assim.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
parasimpattias #4
Ora, esta e muitas outras estórias, podem muito bem ter iludido há muitos anos, as mentes inocentes de nós, pobres e frágeis criancinhas. Mas hoje já adultos, será muito fácil somarmos dois mais dois, juntarmos todas as aventuras que naquele tempo eram vividas nas florestas dos contos de fadas e trazermos ao de cima, o forrobodó que por ali andava.
Para começar, a mãe da Capuchinho Vermelho tinha um negócio muito lucrativo: um curso superior para princesas, filhas de reis falidos. Princesas com vontade de serem mulheres emancipadas, que desejassem encontrar rapidamente um príncipe novo, rico e sobretudo ingénuo. As aulas eram administrados na famosa Casinha de Chocolate. A fama e eficácia dessa licenciatura, vieram de alunas tão famosas como, a Branca de Neve, a Bela Adormecida, a Princesa Cisne e a Rapunzel. Todas elas umas grandes sonsas que tiraram vinte valores no estágio final.
A Bela Adormecida por exemplo, foi convidada para administrar a Singer e à Rapunzell, até o Vidal Sassoon se lhe prostrou aos pés, para que ela fosse a sua imagem de marca na nova linha de champôs. Diz-se ainda, que a Branca de Neve tem o monopólio da fruta nas estufas de Almeria, e que a Princesa Cisne possui um aviário onde faz experiências transgénicas, em tudo o que é bicho que tenha asas; até melgas, vejam bem.
Bom, a avozinha da Capuchinho, que era sogra da mãe da menina e que nunca vira com bons olhos o casamento do seu filho com ela, descobriu-lhe a universidade clandestina e a ideia perversora do imaginário infantil. A astuta velhinha, também conseguira saber, que o lobo mau estava mancomunado com a megera da nora: era nem mais nem menos, que o reitor da dita espelunca de ensino.Senhora séria das estórias de encantar, vendo a fantasia e o sonhos das crianças à beira da catástrofe, ameaçou-os de que ia fazer queixa deles ao patrão, o senhor Walt Disney.
Os dois impostores, trataram logo de convidar o Winnie the Pooh, mais o João e a Maria, para em três tempos darem cabo da casinha de chocolate, onde era a universidade das princesas. Não podiam deixar qualquer vestígio da tramóia.
O lobo mau, tinha ainda de comer a avozinha, antes que a Capuchinho Vermelho lá chegasse e não ficasse esta também a saber de toda a história: falsas princesas, príncipes enganados, casamentos sem amor, fadas sem poderes e nada de terem muitos meninos.
O caos estava lançado: meninas perdidas no bosque, ursos a comerem universidades de chocolate, princesas interesseiras, lobos a engolirem avozinhas, estúdios de Hollywood metidos ao barulho, mães incautas. A mim ninguém me tira da ideia, que aquilo tudo acabou em bem, com os caçadores à mistura e tudo, porque foi o próprio do Perrault, que não mais se aguentou com a incúria e a libertinagem dos seus personagens e resolveu salvar a honra do convento, dando um final feliz à história, antes que se descobrisse toda aquela farsolice.
Uma verdadeira conspiração infantil, estas pseudo-contos de fadas, essa é que é essa. E nós ali, crianças puras, esponjas da fantasia, ávidas de ficção, todas as noites antes de irmos dormir, escutando estórias de fadas e de suas princesas felizes para sempre.
E do seu imaginário Si, o que resultou para o final da sua estória?
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
ensaios
Memórias em papel, necessidades fisiológicas do pensamento, despejos pensantes, letras voluntárias.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
vírus* num blog sério e familiar #10
(Parai todas, parai! Se ando eu em privação calórica, também andais vós, pois então)!
* um belo naco de...
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Patti
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
aqui pelo meu bairro # 6
Não, não foi o Onofre, o padeiro. Esse é mais olhares, piropos e insinuações, mas chegar-se à frente que é bom, nada. Foi o Xavier do talho. Um viúvo muito jeitoso, que se mudou para o bairro vai para três anos, mais coisa menos coisa.
Eu já tinha notado que ele me favorecia no peso das entremeadas, no aviamento das iscas e na qualidade dos miúdos para a canja. Até pensei com os meus botões, o homem é novo cá no bairro e quer conquistar a clientela. Nada disso, nessa manhã de sábado, na alvorada do meu ressurgir para a paixão, na redescoberta dos prazeres proscritos a uma viúva respeitosa, confessou-me ele um incólume arrebatamento, no mesmo instante em que me pôs a vista em cima.
E para verem que o namoro é coisa séria e tem futuro, escutem lá isto:
Noutro dia fomos namorar junto ao rio. Os dois juntinhos dentro do carro à beira Tejo, vendo os barcos partirem para o Seixal. Mas nada de poucas-vergonhas, amassos e demonstrações vivaças, nada disso! Ele a ouvir o relato e eu, precavida, concentrada no meu croché a ver se substituía os naperons da televisão lá de casa, que já estão como há-de ir.
Nisto, sabendo para onde eram os naperons, pergunta-me o meu Xavier assim um pouco altercado: para a televisão Amelinha? Quero lá isso de televisões na nossa casa, minha jóia! Na nossa casa, só LSD e mais nada. Fiquei boquiaberta, mas assenti claro está, que uma mulher não se quer respondona como umas e outras e para mais, também não falo estrangeiro e até achei o nome pomposo: LSD.
A Zeneide manicure tratou logo de me explicar, que os LSD eram umas televisões muito modernas e fininhas, que se fixam nas paredes das casas ricas, com uma cola muito especial que nunca despega e que vem não sei donde.
Ainda nem estou em mim da emoção e diga-se de passagem, um bocadinho para o psicadélico; eu, Amelinha, com um LSD colado na parede da minha humilde sala, vejam lá bem!
domingo, 24 de janeiro de 2010
privações II
Bem, mas como este tipo de alimentação serve um nobilíssimo objectivo, eu aguento-me. Oh se me aguento, senhores.
Ora mas o que eu queria mesmo, era que os meus queridos vizinhos blogobairrenses me facultassem receitas de refeições pouco calóricas, daquelas simples, fazíveis e sobretudo, atenção, sobretudo muito saborosas. E sobremesas também.
Essa é que é essa!
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
crónicas de graça # 8
Isto de se ser pontual, não será uma tarefa fácil de se cumprir. Porque pontualidade no verdadeiro sentido pouco se pratica. Na maior parte dos casos, ou se chega antes, ou depois.
Pode-se rapidamente fazer o perfil dos atrasado-compulsivos. São quase sempre pessoas descontraídas, flexíveis com o factor tempo, parecem a todo o tempo bem dispostas e têm por lema, a vida são dois dias e xô stress. Não esquecer, que chegam sempre com um enorme e irresistível sorriso de anjo na cara, acessório imprescindível à desculpa do atraso. E se ainda repararem bem, têm um letreiro na testa dizendo, eu tenho cá uma lata!
Adoptei há muitos anos, a estratégia de me encontrar com eles - esses amigos perfeitamente identificados - em esplanadas a apanhar sol, já sentadinha no restaurante a petiscar, ou em casa. Nunca na rua especada, feito estátua nervosa presa ao pedestal.
Há o outro lado deles, que me aterroriza. Têm regularmente mil tarefas em mãos, as quais não conseguem cumprir, deixam muita coisa para trás e para depois, falham constantemente compromissos que vão desde uma importantíssima reunião de negócios, à festa da escola dos filhos. São incapazes de fazer escolhas entre um assunto que requeira prioridade, e outro supérfluo. Dizem que sim a tudo, nunca há impedimentos para nada, alguma coisa se há-de desenrascar. Aquela velha história, de que o ovo estará eternamente na galinha...
Ora, este é o oposto do comportamento dos adiantados. Organizados, metódicos, previdentes. Também temos o lado negro claro, não somos perfeitos: ansiosos, impacientes, apressados, exigentes.
Um dia, assisti a uma peça no Teatro Tivoli, "Sete Minutos", um monólogo com o brilhante António Fagundes. O actor avisou em entrevistas televisivas e reportagens, de que as portas encerravam impreterivelmente às 20.45h. Nem mais uma alminha lusa entrava naquela sala, nem sequer valiam a pena, as desculpas de maremotos, morte da mãe ou uma unha encravada. Nada, nada, nada.O público português ria é claro, achavam graça, comentavam o impraticável atrevimento, não acreditavam na sua concretização. Dito e feito. Ficaram cinco ou seis pessoas na rua e o caso foi tão insólito neste país de atrasados, que até deu em notícia de jornal.
Infelizmente, a exequível ideia ficou-se por ali. Devia haver normas mais severas de cumprimento de horários, especialmente nos locais públicos, onde os demais são prejudicados pela classe dos atrasados crónicos. Cinema, teatro, concertos, conferências e afins.
Lá vêm eles, à média luz, sempre com aquele enervante arzinho pateta, quase dócil, praticamente de gatas, a passarem entre as cadeiras aos tropeções e de nariz no chão, cheios de com licenças e desculpe, desculpe, desculpe, que só me apetece empurrá-los por ali abaixo (a privação de açucares deixa-me assim, colérica).
Pronto, já desabafei!
E o Carlos? Por favor não me dê um desgosto, dizendo que é um desses! Bom, desconfio que não.
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